Bordado – Espaço de escuta e produção de sentidos

Em meio a uma pandemia como a que estamos enfrentando, hoje, 7 de abril, comemora-se o Dia Mundial da Saúde. Essa data nos remete à noção de cuidado e às formas de Promoção da Saúde e Ambientes Saudáveis, conscientização que o momento exige. Ao pensar neste tema, lembro que a linguagem da arte é também um caminho para a saúde, uma vez que contribui para uma maior compreensão da realidade, desperta sentimentos favoráveis às transformações e aumenta nossa capacidade de resiliência. Por isso, quero compartilhar com vocês o texto da amiga Clélia, com que me deparei hoje. Clélia dá um testemunho muito lindo sobre os espaços de convivência criados pelo bordado, onde as relações são tecidas entre a beleza e a falta dela, entre o cuidado e o amor pela natureza, entre o sagrado e o humano.

 

“Bordando e promovendo saúde…

Tenho pensado sobre o quanto o bordado tem relação com a promoção da saúde e, ao pensar sobre isso, tenho me aproximado muito de uma imagem que me ajuda a falar de ambas as coisas. Tenho memória de mulheres sentadas em poltronas de cor amarronzada, ao redor de uma mesa com biscoitos caseiros, cuscuz… Lembro de um cheiro forte de café, de rapé, e sons difusos. No corredor, ainda antes mesmo de chegar na casa, ouvia sons abafados, misto de conversas e risadas.

Observava que quando tocava a campainha, e mesmo sabendo que todas estavam muito perto da porta, demorava muito até que uma delas levantasse para me atender. É que o tempo lá dentro passava de forma diferente, era bem mais lento… As mulheres que se juntavam naquelas tardes para bordar tinham idades diferentes, personalidades distintas, quase opostas. Elas não pareciam ter conexões, a não ser o fato de se sentarem juntas, conviverem por horas, sem que nenhuma fosse ou se portasse como líder, como a mais experiente ou melhor bordadeira. O bordado, algumas vezes, parecia um mero pretexto. Por outras, a maior razão dessa junção, do foco, do ponto de contato de vidas e caminhos que, não fosse por ele, aquelas mulheres jamais se encontrariam.

Daí, entre linhas, tornavam-se muito parecidas, sem que fossem. Por vezes silenciavam, por outras falavam incessante e simultaneamente. Eram ricas demais as histórias que contavam. Diziam de uma viuvez libertadora, antes sentida como aprisionadora; falavam do distanciamento dos filhos, sem que isso pudesse ser julgado pelas demais; descreviam seus amores perdidos, clandestinos, eternos… Falavam de reformas nas casas, nas roupas, na vida… Bordavam coisas diferentes, em ritmos bem variados, como se as linhas soubessem para que pano deveriam ir, que pontos deveriam ser apertados, desfeitos, refeitos…

Demorei a reparar quais ou quantas delas se dedicavam a conferir os avessos. Quase não encontrava sentido na escolha dos bicos de crochê que programavam para as toalhas que produziam, muitas vezes sem destinatários. Ficava sabendo depois que algumas eram vendidas, mas outras eram usadas em lugar das velhas que já não podiam ser postas em dias de festejos, tamanha quantidade de rasgados ou cantos puídos.

E ali estava uma vivência altamente promotora de saúde. Capaz de tornar um lugar acolhedor, aberto às experiências e extremamente facilitador de trocas. Espaço de cumplicidade, escuta e produção de sentidos. Lugar de singularidades e partilhas, sem distinção. Tempo de escolhas, tomada de decisão e concretude, materialidade. Momento de fazeres, de dar expressão ao que era simples traço, riscado em tecido tingido, agora ocupado de cores vivas. Penso que aí está a essência da promoção da saúde: algo que se borda junto!”.

 

Clélia Parreira, Brasília, 7 de abril de 2021

Clélia Parreira é bordadeira curiosa, educadora com atuação na educação e promoção da saúde, Professora da UNB- Faculdade de Ceilândia.

O texto de Clélia é um emocionado relato do bordado e da promoção da saúde em sua dimensão subjetiva. Trazer essa dimensão subjetiva da promoção da saúde importa muito na discussão sobre o cuidado, neste momento de pandemia. Cuidado consigo mesmo, com o outro e com o meio ambiente. Promove reflexões sobre aspectos do que significa qualidade de vida e costura a relação especial que existe entre saúde, meio ambiente, bem-estar físico e psicológico, expansão de consciência e promoção de saúde.

Promoção de saúde pelo cuidado! Podemos cultivar um olhar amoroso a partir do próprio corpo, que é nossa primeira casa. Como disse o poeta TT Catalão: “o meio ambiente começa no meio da gente”.

 

 

 

 

 

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