Peço licença para começar nossa prosa de hoje falando das Árvores da Vida Nossa. Ao longo da existência construímos paisagens internas, paisagens sonoras, paisagens da memória, que vão além do que se vê.
Bordadas em mim e em meus irmãos elas ganham forma na imaginação e na criação de mais uma tela. E é bem por ali, entre árvores e chão molhado por onde a vida anda em alegrias do broto da pontinha da árvore ou na água que surpreende e nasce escondidinha entre raízes, a meninada procurando ninho de passarinho ou uma fruta madurinha.
E uma delas é a “Árvore das Nascentes”. Ela sempre esteve bordada em nossas vidas de meninas e meninos da
roça. Mas foi entre 2016 e 2017 que o Demóstenes trouxe de volta essa imagem da fantasia dos “pé de pau” todos que a vida nos deu de presente, árvores da vida nossa entre corguinho à toa e pequenos fios d’água.
O nosso respeito pela árvore, essa senhora mães das águas é que nos faz bordar suas representações na paisagem dos afetos e da memória. Pra não esquecer nunca dessa relação de circularidade entre mães e filhos – árvores, água seres e chão estão presentes em nossa obra.
Os galhos da árvore nesta tela simbolizam as diferenças da vida e do ser. Diferenças entre os tempos e o ser. Ah! … e esta conversa puxa lembranças…
Aos meninos e meninas, foram entregues fios e meadas coloridas e cada um a seu tempo foi sendo bordado por dentro, bordado sobre e sob a sombra de um cajueiro, quem sabe abacateiro? Sobra de um pé de manga que vira mangaba ou um pé de romã que vira amora? Ou terá sido sobre a sombra encantadora da lamparina brincando de “chicotim queimado” na parede de adobe?
Do lado de fora da sombra outros encantamentos eram revelados à luz do sol e do vento caprichoso fazendo barulho pra acordar filhotes de passarinhos. A paisagem se enchia de sonhos, de barulhos de mato, As sombras do mato desenhavam novos contornos com a luz das Minas e das Gerais, onde a chuva se abriga também no colo das árvores do cerrado e vai para as funduras da terra. São as nossas árvores de vida inteira que incessantemente bordamos para celebrar o ciclo da vida.
Ah…bordar árvores e (A)bordar caminhos internos: nossas raízes.
Bordada sobre a trama de um tapete mineiro, com fios de lã e algodão, a “Árvore das Nascentes” foi exibida durante a “Ciranda de Filmes 2017”, no Espaço Itaú Cultural em SP.
O desenho de fundo foi criação de Demóstenes Dumont, irmão e integrante do Grupo, que bordou e contribuiu com seu característico traço. Foram usadas as técnicas de “bordado a fio solto” e pontos “malabares”, de autoria do Grupo Matizes Dumont.
Bom dia, fiquei emocionada com o texto! Ja vivi no interior do Rio de Janeiro em Itatiaia e tive a oportunidade de correr pelos campos como passarinho solto. Muito lindo! Gosto de bordar um pouquinho de crochê. Obrigada! Maria Emília
Espetacular! A arte de bordar
É Incrível a composição das corres, a simbologia e a cultura retratada nessa obra!!! Parabéns