Bordado Livre e sem destino: descubra beleza no incerto

Comece sem saber o final: o bordado livre como prática de entrega

Bordar é semear o tempo com fios de afeto. O bordado livre nos chama a confiar no processo no qual estamos vivendo.

Ele não demanda que saibamos exatamente onde vamos chegar: tal qual o “arqueiro zen”, não miramos no alvo, mas nos “tornamos um “ com o arco, a flecha e o gesto.

O caminho, nos ensina Eugen Herrigel em A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, é mais importante que o destino.

Basta começar, com o coração aberto, e a prática guiará.

Avesso de mim. Foto Marilu Dumont. Bordado Ângela Dumont

O bordado livre é bem assim, um convite para confiar no invisível, visitar o improvável. Não precisamos saber do desenho nem do final; comece seu bordado como quem planta a semente de algo muito bom, sem exigir que a brotação seja aqui e agora.

A linha, mesmo solta pode ser a esperança. Sementes, têm seu tempo –  eclodem silenciosamente, enraízam e desabrocham simplesmente.

Assim é o bordado, uma prosa boa entre mãos, coração e afetos. Essa tríade mágica onde pontos seguem em direção ao que ainda não se conhece, mas já se sente.

Pode ser na cadeira preferida, com o rádio ligado ou no meio do caos do dia… Algo sagrado está nascendo ali.

Recorte da Obra Fiandeira. Bordado de Grupo Matizes Dumont.

Bordando memórias: use o bordado para acolher sentimentos

Se o bordado é semente, então o tecido é a terra que guarda memórias feitas do vivido, dos movimentos de dedos que brincam, que buscam nos fios os cheiros, as vozes e paisagens.

Bordadeiras da nossa ancestralidade sabiam que um enxoval bordado à mão era um verdadeiro mapa de afetos. Cada inicial tracejada, cada flor, era uma assinatura do tempo em amores verdadeiros.

Hoje, o bordado livre bebeu água dessa fonte de magia, e encachoeirou na liberdade. Nele, a memória é inspiração.

Seja na cor que lembra o vestido da infância , no traço que copia o contorno das montanhas de perto da casa de um dia, ou no ponto que repete o movimento do vento na folha de uma árvore.

O bordado livre não repete desenhos, formas , mas  revela. Vai buscar no avesso da alma o que já estava lá, esperando para ser visto.

Recorte da Obra Amor, Amor. Bordado Matizes Dumont sobre desenho de Demóstenes.

Transforme desejo em ponto: como o bordado livre dá forma aos sonhos

Mas o bordado também é fio do amanhã. É um modo de dar forma ao que ainda não existe – um sonho, um medo, um amor que não cabe em palavras.   

Seria uma flor para simbolizar recomeços? Um ponto irregular para celebrar imperfeições. Ou um coração escondido entre folhas, como um segredo alinhavado.

Não importa se tudo parece confuso no começo. O bordado livre aceita a incerteza e o que parece erro. Ele sabe que, às vezes, o primeiro ponto já é a resposta que o coração precisava dar.

Recorte da Obra Meninas Aprendizes. Bordado de Grupo Matizes Dumont.

O avesso do bordado e a beleza do inacabado

O bordado ensina que no avesso há sentidos. Os nós estão lá, as linhas se cruzam sem ordem, e ainda assim o direito é belo e pura emoção.

Bem assim somos nós onde habitam imperfeições, dúvidas, de pontos que parecem errados,  mas que vistos de outra perspectiva forma o todo.

Segredos do avesso. Bordado Matizes Dumont. Foto Marilu Dumont .

Por isso, se há algo em você que ainda não tem nome: borde.
Se há um sonho que parece pequeno demais: borde.
Se há uma saudade que não cabe no peito: deixe que o fio carregue.

Porque o bordado livre é, acima de tudo, a coragem de começar mesmo sem ver o fim.

E você? Qual semente de sonho ainda está esperando para ser plantada no tecido da sua vida?

assinatura Marilu Dumont

Brasília , 08/07/26

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