A cor e o tempo vivido

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A cor e o tempo vivido banharam-me o coração, esboçaram luzes nas entranhas e decerto que cerziram as asas da minha imaginação.

Árvores do cerrado, montanhas – verdes e azulados em mim.

Sem cerimônia, vou deixando-me guiar pelo cerrado, pela cor e o tempo. Pois é sem cerimônia que o cerrado, em sua incomum beleza e simplicidade, atraiu, desde bem cedo, minha atenção. Atenção de criança morando no interior das Gerais.

Flores do cerrado demonstrando a cor e o tempo vivido.
Cerrado no Lago Norte, Brasília, 2024.  Foto de Roger Melo.

Essa atração pela beleza rara do não convencional, a curiosidade pelo que é torto, esquisito, audacioso e informal foi enovelando-se livremente em mim.

Cerrado demonstrando a cor e o tempo vivido.
Foto de Eugênia Rodrigues, 2025.

No convívio com a natureza das coisas.

Árvores, a cor, e o tempo, e formas do cerrado são minhas verdadeiras inspirações para um bordado livre de preconceitos.

Desenhos insólitos de folhas, flores e delicados capins balançando ao vento leve formam extraordinários desenhos no chão e se transformam em nova tela bordada.

Flores do cerrado demonstrando a cor e o tempo vivido.
Flor de Cigana (Calliandra). Foto Marilu Dumont, 2005.

Flores têm formatos exóticos como a delicada flor de cigana (a Caliandra), a flor do pequi, o intenso amarelo do ipê.

A caraíba preta nos encanta com suas flores peroladas.

E ainda os lilases do jacarandazinho do cerrado, o intenso rosado da cega-facão.

Recorte Obra “Ipês“, de Matizes Dumont. Foto de Marilu.

Pés de serra, beiras de rios, veredas, várzeas ou capão de mato são segredos a se descobrir entre árvores, palmeiras e arbustos nos bordados.

Recorte da obra “Ilha“. Matizes Dumont, 2006.

Neles, fios de cipós, folhas cerzidas pelo tempo ou recortadas pela lagarta-pintada de olhos cheios de cores.

Nas tramas do tecido tempo, a linha de seda ou algodão borda, secretamente, o admirável grafismo das árvores, das suas cascas, das sementes e de suas cores.

Por isto tudo sou grata ao cerrado, pela contribuição na minha vida e na arte de bordar do Matizes Dumont.

Grata pela vida que transborda no cerrado. Há que se cuidar dele!

Trecho do livro “Harmonia das cores nos fios do bordado – Alquimias na vida de uma bordadeira”, de Marilu Dumont.

assinatura Marilu Dumont

Brasília, 16 de outubro de 2025.

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