Dia de Reis e Folia de Reis: memória, religiosidade, tradição que se borda no tempo

O som da viola, acompanhado pelo batido das caixas, atravessa a madrugada e nos desperta para algo maior do que a rotina: um tempo sagrado em movimento, o Dia de Reis.

Bordado artesanal representando a Folia de Reis no interior do Brasil, com foliões coloridos tocando instrumentos, carregando bandeira e caminhando por uma paisagem rural com casas, plantações e vegetação.
Obra Folia de Reis. Veja a gravura AQUI.

Esses sons permanecem vivos até hoje, guardados no coração como uma memória sonora que ensina, sem palavras, sobre pertencimento, fé e continuidade.

A Folia de Reis é herança cultural e afetiva na nossa família e de muitos outros.

Desde a infância, aprendemos a respeitar e acolher esta Folia como parte essencial da vida.
A chegada dos foliões na porta de casa é sempre motivo de alegria.

O Dia de Reis, celebrado em 6 de janeiro, encerra o ciclo do Natal cristão e mantém-se viva como uma das manifestações mais profundas da religiosidade popular brasileira.

Bordado artesanal representando os Três Reis Magos guiados pela Estrela Guia no deserto, com camelos, palmeiras e um céu colorido em tons de azul, roxo e laranja, simbolizando a jornada do Dia de Reis.
Obra Estrela Guia e Três Reis. Veja a gravura AQUI.

Presente em diversas regiões do Brasil, essa tradição reúne fé, música, convivência comunitária e memória, atravessa e alinhava gerações como um saber vivo.

Indumentária, símbolos e alegria ritual

As roupas dos foliões são marcadas pela simplicidade, refletindo a essência da tradição.

Já os palhaços, figuras centrais da celebração, vestem trajes floridos. Mascarados expressam do corpo e seus movimentos uma alegria brincante. Representam simbolicamente os Reis Magos e cumprem um papel fundamental: proteger a bandeira, abrir caminhos e lembrar que a espiritualidade também pode ser leve e lúdica.

Bordado artesanal representando uma festa de Dia de Reis, com pessoas dançando e tocando sanfona e violão em um gramado verde, ao fundo casas rurais, árvores floridas e um céu azul em movimento.
Obra Festa na Gameleira. Veja a gravura AQUI.

A bandeira da Folia de Reis: fio condutor da devoção

A bandeira sempre encantou: repleta de fitas coloridas, imagens recortadas em papel e, muitas vezes, bordados, ela concentra o sentido simbólico da caminhada com a Estrela Guia.

Ela é um objeto ritual, carrega histórias, entra pela porta da frente das casas, cria vínculos e educa o olhar para o sagrado no cotidiano.

Essa convivência profunda com a folia contribuiu diretamente para nossa formação seja como educadores ou como pessoas com intimidade com a arte.

Nos ajuda na construção de uma vida bordadeira, sensível ao tempo, ao gesto coletivo e à força do simbólico.

Bordado e o Dia de Reis: tradições que dialogam

Há alguns anos, como forma de preservar a memória e honrar a tradição, bordamos uma bandeira para uma Folia de Santos Reis, a mesma que acompanha até hoje a Folia de Tia Guidinha.

Nesse gesto, o bordado tornou-se linguagem de fé e continuidade cultural.

O bordado conversa profundamente com a alegria da Folia: ambos exigem força, escuta e cuidado.

Assim como as cantigas e os cortejos, o bordado também alinhava histórias, conecta pessoas e mantém viva a celebração do Dia de Reis.

Dia de Reis: tradição, fé e memória viva

Celebrar o Dia de Santos Reis é reconhecer que a tradição não está presa ao passado. Ela se renova no corpo, no som, no fio e no encontro. Entre violas, bandeiras e bordados, a Folia segue ensinando que a fé se constrói em movimento, na partilha e na memória que insiste em permanecer.

Que tradições da sua infância continuam, ainda hoje, bordando silenciosamente quem você se tornou?

assinatura Marilu Dumont

Brasilia, 06 de janeiro de 2026

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