O Bordado Livre Neocontemporâneo feito “a fio solto e malabares” é praticado pelo Matizes Dumont desde que a ousadia passou a nos acompanhar.
A convivência com o fascinante mundo dos materiais têxteis a partir da infância despertou curiosidades e nos levou a percorrer caminhos outros.

À semelhança de provocação diária essa é a força que nos instiga e move a explorar texturas, volumes, contrastes de luz e sombra como nas veredas e olhos d’água do irreverente cerrado. Mamãe e papai tiveram papel importante nessa leitura e olhar sensível sobre a natureza. Mas foi muitos anos depois que Ângela Dumont, nossa irmã, nos convidou a visitar esta vida bordadeira com reinvenções de pontos e brincadeiras que ela chamou de “bordado a fio solto e malabares“.
De lá pra cá, cada um de nós faz sua própria escrita com esses fios no bordado livre.
Bordado livre a fio solto, sobre tapeçaria.
Vou principiar hoje pelos trabalhos de Demóstenes, artista visual e integrante do Grupo Matizes Dumont, que dentre tantas linguagens da arte desenvolveu uma técnica singular que des(fia) fronteiras entre bordado, pintura e tecelagem: o bordado livre a fio solto, mas desta vez sobre tapeçaria.

Trata-se de uma linguagem visual autoral em que a tapeçaria deixa de ser suporte neutro para tornar-se campo pictórico ativo e afetivo. Campo já carregado de cor, textura e densidade, sobre o qual o bordado é a segunda camada poética, com sentido e com beleza.
Ele adota o suporte como parceiro constante. A escolha da tapeçaria como base nem é casual nem estética.
A trama que acabou de ser criada estabelece o campo cromático e tonal que o artista lê antes de bordar: as variações de cor, a direção dos fios e a rugosidade da superfície orientam onde o bordado vai incidir, contrastar ou se fundir.
Essa conversa entre suporte e bordado é, em si, um gesto curatorial. Demóstenes integra pontos do bordado livre à tapeçaria, responde a ela em sensível diálogo.
A gramática do fio solto
Os materiais escolhidos como fios artesanais de lã e algodão, fibras esfiapadas, fios com acabamento bruto ou irregular, meios de execução, são o vocabulário da obra.
O fio solto, não aprisionado em pontos fechados, oscila entre o traço e a mancha, entre o contorno e o volume. Nestas obras, essa gramática é claramente legível:

Obra Mulheres Coletoras do São Francisco
A obra simboliza povos que tomavam o rio São Francisco como caminho. Em Peruaçu (próximo a Januária, MG), os traços das pinturas rupestres, ora delicados, ora vigorosos, revelam o cotidiano em imagens que mais parecem sonhos. Entre esses povos, possivelmente estavam as mulheres coletoras de sementes e frutos, com papel fundamental para as comunidades e a biodiversidade.
Esta tela é uma homenagem à mulher barranqueira, à “Mulher Coletora de Sementes”, a mesma que Borda Águas, o ser especial chamada Mãe d’água. A que cuida das cachoeiras, dos meninos atentados que pulam do cais, dos remeiros nas tempestades, arrebata amores e encanta os barqueiros nas noites de lua clara.
Nesta composição com figuras femininas em azul-turquesa, os corpos emergem como silhuetas construídas com sobreposição densa de pontos enquanto os contornos se desfazem em fios soltos. Fios que se dispersam na paisagem, criando a sensação de fluxo e dissolução do corpo no espaço.

Obra Desafios do Cavaleiro
Aqui o homem sertanejo que de tão encantado com a natureza decide cavalgar virado para trás para olhar o mundo de outro ponto de vista.
Nesta obra a lã esfiapada nas áreas de fundo azul produz uma textura atmosférica que imita névoa e céu aberto, enquanto o cavalo e o cavaleiro são construídos com pontos mais definidos, gerando profundidade e hierarquia visual.

Obra Luzes do Cerrado
A obra captura as luzes e sombras e cores do cerrado em época de seca. Traduz a força e resiliência na mensagem simbólica do florescer da vida nas Gerais, mesmo quando a chuva não chega.
Na obra Luzes do Cerrado a técnica alcança talvez sua expressão mais complexa, quando faixas horizontais de cores terrosas compõem o solo como uma geologia imaginária; o tronco da árvore, bordado em azul sobre ocres, uma linha diagonal percorre os planos e ancora a composição. A floração do ipê amarelo pisca como estrelas.

Obra Seres do São Francisco
Esta tela celebra os ancestrais do povo barranqueiro do são Francisco. Desde há milhares de anos que as águas do rio encantam os viventes.
Conta-se que um povo andava desde Minas Gerais, Santa Luzia, passando por Peruaçu, até encontrar o caminho de águas rumo norte e seguia por ele provavelmente até o Piaui.
Esses nossos ancestrais desciam o rio na direção nordeste, possivelmente em busca de alimentos, dos doces frutos da vegetação que já se modificava e aos poucos no ciclo da vida transformava-se no cerrado e na caatinga de hoje.
O registro do cotidiano que este povo andejo deixou para nós está nas grutas, nas lapinhas, nos espaços naturais de descanso, de onde miravam as estrelas e o céu do amanhã.
A Obra
Na obra Seres do São Francisco, a “gramática do fio solto” opera em registro arqueológico e narrativo. A composição estende-se horizontalmente como uma parede de gruta ou uma faixa de margem de rio. E é sobre essa superfície estratificada que o bordado intervém em superposição.
A tapeçaria de base, já rica em variações de ocre, terracota, vinho e bege, é lida pelo artista como sedimento vivo: em certas zonas, a própria trama é desfiada, esgarçada, deixando entrever o esqueleto do tecido, como se o tempo e a passagem tivessem trabalhado junto com o bordadeiro.
Sobre essas áreas, os fios aparecem rarefeitos, em pontos que mal pousam na superfície. Cria-se a sensação de rastro, de presença que já foi e ainda está.
Esse esgarçamento deliberado contrasta com os núcleos de adensamento, de figuras, manchas amarelo-musgo, texturas de margem e vegetação. Exatamente nessa alternância entre o cheio e o vazio, entre o fio que fica e o fio que se solta, que a obra revela sua operação mais precisa: a do Bordado Palimpsesto.
Como o pergaminho raspado e reescrito onde as camadas anteriores ainda transparecem, aqui a tapeçaria é o primeiro texto, o esgarçamento é a raspagem que o tempo expõe, e o bordado é a nova escrita. Escrita que não apaga, mas sobrepõe, dialoga e guarda a memória dos povos andejos que desceram o rio, deixaram suas marcas nas pedras e seguiram.
A tríade mágica: luz, sombra e cor

O conceito da tríade mágica, cor, luz e sombra é exercido aqui não pela alternância entre fios mais densos e fibras rarefeitas ou desgastadas.
A luminosidade nasce da escolha de fios claros sobre fundos escuros; a sombra, da compactação dos pontos ou da escolha de lã encardida; e a cor funciona em harmonia análoga, complementar ou monocromática, conforme a intenção emocional de cada campo da obra.
O resultado visual tem mais parentesco com o pontilhismo ou com certas aquarelas expressionistas do que com o bordado convencional.
Posição no campo da arte têxtil contemporânea
Dentro do panorama da arte têxtil brasileira, essa técnica representa uma síntese entre tradição artesanal. A raiz mineira de Demóstenes e do Matizes Dumont, e a ancestralidade do bordado à mão. Reflete uma atitude plástica contemporânea que recusa a hierarquia entre artes maiores e menores.
Nomear o gesto como “fio solto”, enuncia uma poética: a liberdade do fio que não está preso da forma que não está acabada. A obra que permanece em processo e abertura.
E se você quer conhecer algumas destas obras, visite a exposição coletiva “Poética Campesina”, no Instituto Cervantes, em Brasília. A exposição ficará aberta até 31 de julho de 2026 e reúne pinturas, bordados e expressões têxteis de artistas e coletivos do Brasil e da Espanha.

Brasília, junho de 2026







