Sustentabilidade nas mãos e nos fios do bordado

O trabalho com os fios do bordado é um ofício ancestral, delicado, que guarda em si diferentes propósitos e significados.

Há quem borde para passar o tempo outros como forma de subsistência financeira. Há bord(ação)como resistência emocional em seus desafios de superação e desenvolvimento pessoal.

Bordar, inclui ainda a proposta de ativismo político e como caminho de resistência a favor do planeta.

Imagem monstrado uma mão formada por fios do bordado, Essa mão segura crianças em rodas.
Bordado de Ângela Dumont. 2018.

Arte que cuida do planeta – Fios do bordado sustentável

O bordado sustentável transborda o domínio técnico e afirma-se como uma filosofia que alinhava o aqui e agora aos fios do bordado de amanhã.

Na prática do Matizes Dumont, traduzimos essa perspectiva em sensibilidade e valorização dos processos vividos e da sustentabilidade em projetos socioambientais.

Ao unir tradição e sustentabilidade, o bordado pode transforma-se em voz, escritas e novas leituras de uma realidade que inspiram o cuidado com a Terra, com a aproximação e amorosidade entre as pessoas.

Danças da vida - Bordado Matizes Dumont . 2003-2004
Dança da Vida – Bordado Matizes Dumont. Coleção Moça Tecelã para ilustração do livro do mesmo nome de Marina Colasanti. Global Editora 2003

Assim é que no cotidiano esses “fazeres e saberes” do bordado reconectam a ancestralidade ao momento atual e o transformam em um aliado de ações de preservação dos ambientes e da vida na terra.

Gesto que passa também pela utilização de materiais de maneira consciente e ao reaproveitamento de tecidos, linhas e outros itens do mundo do bordado.

Olho para roupas ou peças bordadas guardadas na gaveta e penso sobre o que fazer no cotidiano para contribuir para um mundo mais justo e sustentável.

O bordar torna-se um manifesto contra o desperdício e a destruição.

Gosto muito do bordado com materiais reaproveitados, prática relacionada a uma filosofia de criação consciente e economia de recursos, com benefícios que se estendem do individual ao coletivo.

Coragem de Moça Tecelã – Bordado Matizes Dumont da coleção Moça Tecelã para ilustração do livro do mesmo nome de Marina Colasanti – Global Editora 2003

No rumo desta prosa algumas perguntas insistem nos fios do bordado: como fortalecer a cultura do feito à mão? como bordar pode ser uma forma de dizer “não” à destruição?

Já imaginou que bordar com sobras de tecidos e outros materiais pode ser exercício de criatividade, de ousadia e contribuir para um mundo mais sustentável?

Moça Tecelã – Bordado Matizes Dumont da coleção Moça Tecelã para ilustração do livro do mesmo nome de Marina Colasanti – Global Editora 2003

Bordar com as “sobras” é um ato político sim, ato ecológico, desafiador e muito criativo. Seja um retalho de tecido, pedaços de tecelagem, renda, botões, cada um é uma escolha contra o consumo desenfreado, a favor da sustentabilidade, da individualidade e da valorização do “feito à mão”.

Na gaveta dos guardados, retalhos têm uma mistura de magia, afetos, memórias, encantamentos. 

Um bordado feito com um tecido de roupa antiga carrega afeto e memória. Transforma o ordinário em extraordinário.

Seja aquele vestidinho de criança, ou o vestido de “renda Guipir” da juventude, ou um bordado antigo da mãe.  O mágico xadrez da camisa do marido, o lençol já gasto das crianças.

Amazonas em mim. Bordado Matizes Dumont. Ilustração do livro Amazonas, pássaros, seres e milagres de Thiago de Mello. Editora Salamandra 1998

É exatamente daí que surge a possibilidade de criar algo novo e inesperado para alegrar a alma.

Na gaveta, sobras de tecidos, linhas esquecidas, retalhos guardados. Na mesa, um bordado esperando por “materiais melhores”. Mas… e se o melhor já estiver aí?

Do lixo ao luxo: do esquecido ao novo e extraordinário

Tecidos esquecidos podem dar vida a uma outra peça de forma divertida, extraordinária mesmo. O reaproveitamento de tecidos nos diz de economia, de improviso e de liberdade criativa.

Esse gesto de transformar o que sobrou em poesia visual, é um gesto sustentável. Porque cada pedaço que você reutiliza é um pedaço a menos de lixo têxtil no mundo.

O setor da moda é um dos que mais poluem o planeta.

Produzir uma simples camiseta gasta milhares de litros de água. Mas quando você borda usando o que já existe, você quebra esse ciclo de desperdício e mostra que beleza pode nascer sem custar caro para a Terra.

Essa prática não é nova. Está presente em tradições ancestrais do mundo inteiro:

Retalhos que contam histórias e contribuem na cura da Terra

E não estamos sozinhas nisso: No Japão, o Boro dava nova vida às roupas, na Índia e em Bangladesh, o Kantha transformava panos gastos em mantos cheios de afeto.

Nos Estados Unidos, os quilts reuniam mulheres e memórias em costuras coletivas.

Essas tradições provam: criar com o que se tem é também um ato de resistência, memória e cuidado com o planeta.

Bordar o mundo de novo: como a tradição vira revolução criativa

Olhar para os retalhos como possibilidade, e não como sobra, é uma forma de bordar não só tecidos, mas também um futuro mais gentil com a Terra.

Resgatar essa forma de bordar é político e íntimo ao mesmo tempo: é dizer que a beleza pode nascer daquilo que foi deixado de lado.

Dê um passo a favor do planeta aproveite e alinhave um futuro possível. O futuro é feito à mão.

Agora me conta: qual retalho guardado aí na sua casa pode ser o primeiro fio do seu bordado sustentável?

assinatura Marilu Dumont

Brasília, 25/08 de 2025

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