O Caleidoscópio e Reflexos do Não Tempo

Caleidoscópio tem em si o assombro, o alumbramento diante da beleza dos reflexos, das bonitezas das cores reveladas a cada movimento da mão. Diferenças entre imagens que nunca-nunquinha se repetem diante do olhar a perscrutar e observar diante do não tempo. Tempo? Cadê o tempo e suas cantigas entre as pedras encachoeirando?

Foto de Marilu Dumont

Foto de Marilu Dumont

A aurora nem bem risca o dia e papai nos chama pra fazer um brinquedo especial. Estamos acostumados a fazer nossos próprios brinquedos. Ali na mesa um pedaço de papelão, outro de couro, três pequenos espelhos e pedacinhos de vidro coloridos para fazer um brinquedo. Mas faltam as cores.

Aprendizes de caçadores de belezas ensaiam cedo dentre as cores e os guardados da mãe. No armário perto da cozinha um gato ronrona espertezas. O fogo estrala estrelas enquanto pequenos frascos azuis e âmbar, garrafas verdes enchiam nosso sonho de um brinquedo novo. Então éramos quatro crianças: o pai animado, duas filhas e um filho.

Foto de Marilu Dumont

Foto de Marilu Dumont

Mas cadê o vermelho e o laranja? Saio correndo em busca da minha caixa com pedrinhas de toás. Pedriscos lindos, macios e apropriados para rolar pelas águas da imaginação e não entre espelhos!

Meu irmão abre as gavetas da caixa de linhas de mamãe e “derrepente” bolinhas de linha vermelha, laranja e amarelo saltam aos olhos curiosos – terá sido aí que os olhos de minha irmã enverdeceram diante das imagens caleidoscópicas?

Foto de Marilu Dumont

Foto de Marilu Dumont

A luz brinca nos primeiros movimentos e os espelhos se encantam pelos cacos de vidro e pedacinhos de linhas coloridas. Suavemente inclinados luz e reflexos brincam e inventam formas em composições inusitadas. Tudo pra nos lembrar a diversidade, o direito às brincadeiras.

O pequeno tubo forrado de couro fica no não tempo em desafios de novas experiências das cores nos toques dos dedos de uma criança. Ainda hoje essa lembrança me deixa a(viva)da. Sigo entrelaçando fios coloridos num bordado que não acaba: a vida em cores caleidoscópicas.

Foto de Marilu Dumont

Foto de Marilu Dumont

O não tempo traz de volta quela manhã e outros caleidoscópios. Construir o brinquedo com meu pai foi uma feliz e instigante experiência para mim, minha irmã e meu irmão.

Brasília, 24 de junho de 2024.

assinatura Marilu Dumont

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2 Comentários

  1. Roseli Saad

    Que delícia de texto! Lembrei da minha infância ❤️

    Responder
  2. Genoveva

    A brincadeira com cores e brilhos foi o inicio dessa trajetória tão colorida!
    Afetividade é o tempero essencial no prazer de criar, entrelaçando passado e presente…
    Encantada com a delicadeza da presença paterna.
    Genoveva

    Responder

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