Comece pelos verdes: um conselho que destrava começos

O pano em branco

O pano esticado, as linhas espalhadas pela mesa, as mãos paradas no colo. Cabeça cheia de ideias, o coração hesitante.

Há algo familiar nessa cena:

Tudo pronto, mas o primeiro ponto não vem. O tecido parece um território desconhecido, e a pergunta ecoa dentro: “Por onde começar?”

Hoje eu quero contar pra você que há uma maneira mais suave de lidar com os começos. Um gesto que libera  o principiar com ternura. E, talvez, que transforme um pouco mais do que o bordado.

Esse medo não é só seu

Não se trata só do bordado. Esse “não saber por onde começar” aparece em muitos lugares: quando queremos escrever uma carta importante, retomar um projeto esquecido, ou mesmo dar voz ao que sentimos.

E por trás desse bloqueio, quase sempre mora um mesmo trio: medo de errar, perfeccionismo e sobrecarga.

A expectativa de acertar tudo de primeira. A desconfiança de si. O peso de achar que só vale se sair perfeito.

Mas e se eu te dissesse que começar não é sobre perfeição?  Que talvez começar seja só… começar?

“Comece pelos verdes”

Quando eu mesma  paralisava diante de um bordado, era minha mãe quem me lembrava: “Comece pelos verdes.”

Não era uma frase heroica, nem dita com ênfase. Era repetida com ternura, quase como um mantra.

Ela costumava ensinar a todas nós iniciantes sobre as cores, falava um pouco de cada uma. Mas era sempre pelo verde que começávamos.

Ela dizia isso de um jeito que fazia a gente perder o medo, como quem diz: “Vá pelo caminho possível.

E aos poucos, os verdes  tornaram-se mais do que uma cor.  transformou-se num convite para começar sem medos. Um começo gentil.

Marilu segurando novelo de Lã Verde. Foto de Edgar.

O verde pode ser muita coisa. Pode ser o ponto mais fácil. O que não assusta. Aquilo que você consegue fazer agora.

Porque começar pelos verdes não é só um truque para o bordado fluir. É escolher o caminho possível. Acolher o imperfeito. Permitir-se seguir sem pressa.

O verde — cor da natureza, do frescor, da esperança — tem um jeito de abrir caminho para as outras cores.

Quando você borda um verde, a rigidez cede. E depois, aos poucos, aparecem os laranjas, os lilases, os azuis. Mas primeiro: os verdes.

Por que isso funciona?

Porque tira a pressão do “todo” e do “perfeito”. Ensina que basta um ponto para que algo comece a acontecer. E quando a mão se move, o resto vem.

Além disso, há algo profundamente simbólico no verde: ele remete à natureza, crescimento, renovação e equilíbrio.

Trabalhar mentalmente com essas associações pode ajudar a relaxar, a reconectar-se consigo mesmo e abrir espaço para a criatividade fluir sem pressões.

Além disto, bordar folhas, galhos e sombras ajuda a abandonar a ideia de perfeição — porque na natureza nada é reto, nada é idêntico, e ainda assim tudo faz sentido.


Histórias de bordado como reconstrução

Lembro de uma moça que chegou à roda travada, convidei-a a vir até a janela.

Ficamos um tempo observando a paisagem: as árvores, os tons de verde, as sombras, os galhos tortos.

Marilu Dumont de braços abertos sob uma árvre verde.
Marilu observando os verdas na natureza. Foto de Leonardo Carvalho

Depois de alguns minutos ela respirou mais fundo e voltou ao bordado. Começou bordando um galho simples, que virou arbusto, que virou árvore. Foi momento de expansão.

Outra história: uma moça que tinha terminado um relacionamento e se sentia perdida.

Pedi que ela riscasse um caminho para bordar — e que começasse pelos verdes.Aquelas pequenas escolhas que ela fazia de galhos e folhas a ajudaram a encontrar por onde começar um caminho novo.

Essas histórias me confirmam todos os dias: bordar não é só técnica. É também linguagem emocional.

E quando a gente escolhe um dos tons de verde, escolhe o ato de começar.

Talvez você esteja diante de algo que deseja começar:

Um bordado, uma pausa, um gesto seu.

Talvez a resposta não esteja em “entender melhor”, mas apenas em dar um primeiro ponto.

E talvez, só talvez, esse ponto possa ser… verde.

Quando não souber por onde começar, lembre o que minha mãe dizia:

comece pelos verdes.”

assinatura Marilu Dumont

Brasília, 18 de julho de 2025.


E se você quiser dar os primeiros passos para bordar memórias, sentimentos e histórias, com calma, em boa companhia, eu te espero na

Como é a oficina?

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  • Um grupo pequeno, intimista e acolhedor (máx. 10 pessoas).
  • Guiado por Marilu Dumont — psicóloga e bordadeira.
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