O pano em branco
O pano esticado, as linhas espalhadas pela mesa, as mãos paradas no colo. Cabeça cheia de ideias, o coração hesitante.
Há algo familiar nessa cena:
Tudo pronto, mas o primeiro ponto não vem. O tecido parece um território desconhecido, e a pergunta ecoa dentro: “Por onde começar?”
Hoje eu quero contar pra você que há uma maneira mais suave de lidar com os começos. Um gesto que libera o principiar com ternura. E, talvez, que transforme um pouco mais do que o bordado.

Esse medo não é só seu
Não se trata só do bordado. Esse “não saber por onde começar” aparece em muitos lugares: quando queremos escrever uma carta importante, retomar um projeto esquecido, ou mesmo dar voz ao que sentimos.
E por trás desse bloqueio, quase sempre mora um mesmo trio: medo de errar, perfeccionismo e sobrecarga.
A expectativa de acertar tudo de primeira. A desconfiança de si. O peso de achar que só vale se sair perfeito.
Mas e se eu te dissesse que começar não é sobre perfeição? Que talvez começar seja só… começar?

“Comece pelos verdes”
Quando eu mesma paralisava diante de um bordado, era minha mãe quem me lembrava: “Comece pelos verdes.”
Não era uma frase heroica, nem dita com ênfase. Era repetida com ternura, quase como um mantra.
Ela costumava ensinar a todas nós iniciantes sobre as cores, falava um pouco de cada uma. Mas era sempre pelo verde que começávamos.
Ela dizia isso de um jeito que fazia a gente perder o medo, como quem diz: “Vá pelo caminho possível.”
E aos poucos, os verdes tornaram-se mais do que uma cor. transformou-se num convite para começar sem medos. Um começo gentil.

O verde pode ser muita coisa. Pode ser o ponto mais fácil. O que não assusta. Aquilo que você consegue fazer agora.
Porque começar pelos verdes não é só um truque para o bordado fluir. É escolher o caminho possível. Acolher o imperfeito. Permitir-se seguir sem pressa.
O verde — cor da natureza, do frescor, da esperança — tem um jeito de abrir caminho para as outras cores.
Quando você borda um verde, a rigidez cede. E depois, aos poucos, aparecem os laranjas, os lilases, os azuis. Mas primeiro: os verdes.
Por que isso funciona?
Porque tira a pressão do “todo” e do “perfeito”. Ensina que basta um ponto para que algo comece a acontecer. E quando a mão se move, o resto vem.
Além disso, há algo profundamente simbólico no verde: ele remete à natureza, crescimento, renovação e equilíbrio.
Trabalhar mentalmente com essas associações pode ajudar a relaxar, a reconectar-se consigo mesmo e abrir espaço para a criatividade fluir sem pressões.
Além disto, bordar folhas, galhos e sombras ajuda a abandonar a ideia de perfeição — porque na natureza nada é reto, nada é idêntico, e ainda assim tudo faz sentido.
Histórias de bordado como reconstrução
Lembro de uma moça que chegou à roda travada, convidei-a a vir até a janela.
Ficamos um tempo observando a paisagem: as árvores, os tons de verde, as sombras, os galhos tortos.

Depois de alguns minutos ela respirou mais fundo e voltou ao bordado. Começou bordando um galho simples, que virou arbusto, que virou árvore. Foi momento de expansão.
Outra história: uma moça que tinha terminado um relacionamento e se sentia perdida.
Pedi que ela riscasse um caminho para bordar — e que começasse pelos verdes.Aquelas pequenas escolhas que ela fazia de galhos e folhas a ajudaram a encontrar por onde começar um caminho novo.
Essas histórias me confirmam todos os dias: bordar não é só técnica. É também linguagem emocional.
E quando a gente escolhe um dos tons de verde, escolhe o ato de começar.

Talvez você esteja diante de algo que deseja começar:
Um bordado, uma pausa, um gesto seu.
Talvez a resposta não esteja em “entender melhor”, mas apenas em dar um primeiro ponto.
E talvez, só talvez, esse ponto possa ser… verde.
Quando não souber por onde começar, lembre o que minha mãe dizia:
“comece pelos verdes.”

Brasília, 18 de julho de 2025.
E se você quiser dar os primeiros passos para bordar memórias, sentimentos e histórias, com calma, em boa companhia, eu te espero na
Como é a oficina?
- Oficina Presencial em Brasília.
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📅 Dia 02 de agosto
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