Retalhos, bordados e o cuidar da Terra 

Na semana passada nosso “Ponto de Prosa” aqui foi sobre a “Sustentabilidade nas mãos e nos fios do bordado”, onde começamos a falar sobre retalhos, bordados e sustentabilidade.

Falamos da linha solta da criação com retalhos que pulsa entremeada de afetos, histórias que insistem em permanecer e florescem de novo.

Para ilustração deste artigo a que me refiro, todas as fotos, são de obras feitas, sem exceção, a partir de reaproveitamento de pedaços de panos da tecelagem e de meus guardados de anos.

Bordado Matizes Dumont para Catálogo da Fundação Banco do Brasil.

Na atualidade descartamos quase tudo e nem pensamos sobre o que isso impacta na nossa vida.

Muitas vezes o descarte é de tecidos, objetos antigos como toalhas de mesa, pequenos vasos, móveis peças que um dia ornamentaram a casa ancestral.

Objetos, memórias, tudo vai parar no lixo.

Mas o bordado nos mostra outra forma de convivência: nada é sobra, tudo pode ser transformado e quem saber, reacender lembranças, renascer.

Reaproveitar retalhos para bordados é criatividade, é resistência, é recusa ao desperdício.

Bordado com tecidos reaproveitados mostrando uma cena bucólica.
Bordado do Módulo “Sempre-viva-de-mil-flores Sempre em Mim”. Clube Matizes do Bordado.

O bordado nos lembra que pode haver recomeços entre os materiais guardados.

Em nossas mãos a possibilidade de transformá-los em arte, de reafirmarmos que é possível criar sem desperdiçar, reaproveitar, resistir sem perder a delicadeza.

Para criar um bordado com tecidos reaproveitados

O bordado com tecidos reaproveitados não exige grande investimento.

Você vai precisar de um pedaço de tecido para o suporte, ou a base, e pra completar retalhos, de algodão, de renda ou lã, pequenas peças de crochê, botões encontrados entre seus guardados.

Junte sua alegria, e aquele desejo de criar e siga em frente!

Um obra feita com Retalhos bordados. A obra retrata uma cena a beira de um rio. Na metade superior há uma floresta ao fundo e pássaros voando sobre a água. Na metade inferior há um rio com o reflexo da cena superior bordado.
Obra “Amazonas Seres e Águas”. Grupo Matizes Dumont. Clique aqui para ver a obra.

Para aproveitar as sobras de tecidos e linhas recomendo a técnica de aplicação, que é uma técnica desafiadora, clássica, versátil, econômica e sustentável, claro.

Ela permite criar peças cheias de encantos e baixo investimento em materiais. Muito interessante para experimentar algo novo pelo caminho e deixa a curiosidade fluir para a surpresa do resultado.

 Bora seguir um caminho simples para transformar sobras em uma peça bordada:

Escolha um risco com perspectiva visual

Busque desenhos simples, mas com diferentes planos: perto, meia distância e longe.

Quer um exemplo?  pense numa paisagem com montanhas, árvores e flores. Essa estrutura facilita a composição com tecidos diferentes e traz mais impacto ao resultado final.

Um obra feita com Retalhos bordados. Obra, em tons terrosos quentes, que retratam crianças aladas subindo uma árvore centralizada no bordado.
Bordado Dumont. Registro da peça em elaboração.

Revire seus guardados

A gaveta de panos antigos pode esconder bonitas lembranças. Camisas velhas, lençóis, cortinas, tudo pode ganhar vida nova.

Separe os tecidos por cor e por tom (claros, médios e escuros) — isso vai ajudar na composição do seu bordado.

Retalhos para aplicação em bordados. Uma série de retalhos de tecido, todos de tom terossos, empilhados uns sobre os outros. Ao fundo da cena, uma maleta de coura com árvores pintadas.
Meus Guardados da Tecelagem. Foto Francisco. IPHAN.

Dica: itens como botões, rendas, sianinhas ou até um pedaço de bordado antigo podem virar detalhes da sua obra.

Prepare os materiais com cuidado

Caso necessário lave os tecidos com sabão neutro para remover poeira e resíduos. Evite amaciantes químicos.

Cortina com aplicação de crochê antigo. Foto Marilu Dumont.

Se quiser brincar ainda mais, pode tingir alguns pedaços com chá preto, casca de cebola, urucum ou café — criando uma paleta especial e afetiva.

Desmonte as peças com calma: descosture ao invés de cortar, preservando o máximo possível dos tecidos.

Defina o suporte (base do bordado) escolha uma base firme para bordar

Tecidos como o algodão cru, linho funcionam bem como suporte.

Eles precisam ser resistentes para aguentar o peso das aplicações e os pontos que virão.

Retalhos para aplicação em bordados. Uma série de retalhos de tecido, todos de tom terossos, empilhados uns sobre os outros.
Meus guardados em linho. Foto de Marilu Dumont.

Experimente a composição antes de fixar no pano de fundo

Distribua os recortes sobre a base ou pano de fundo do seu bordado.

Teste contrastes entre liso e estampado, claro e escuro. Reorganize até sentir que a está agradável ao olhar.

Esse é um momento livre e intuitivo, onde não existe certo ou errado.

Fixe os recortes e comece a bordar 

Use alfinetes para segurar os retalhos no lugar e a seguir:  

Alinhave com linha clara, preparando o campo para bordar. 

Contorne com pontos simples: Utilize pontos que já conheça, como ponto atrás, caseado, alinhavo. Caso queira mais delicadeza use o ponto Paris para aplicar os pedaços de tecido.

Acrescente detalhes e figuras em cada plano, como pessoas, flores, árvores e mais o que sua imaginação pedir.

Dica: comece por projetos pequenos, como um marcador de livro ou um broche, para ganhar confiança.

Um bordado que devolve o prazer de criar e valorizar processos 

Bordar com materiais reaproveitados reafirma nossa escolha pelos processos que vão desde a valorização do olhar, dos sentimentos, do tempo de fazer.

Da memória do vivido e da autoria ao sentido do seu movimento a favor da sustentabilidade do planeta. Tempo em que retalhos, bordados e linhas e a vida bordadeira têm valor.

Bordados antigos guardam segredos e agulhas. Foto de Marilu Dumont.

Se nossa prosa aqui fez você pensar na riqueza que tem nos retalhos bordados, comenta aqui embaixo.

assinatura Marilu Dumont

Brasília, artigo atualizado dia 03 de setembro.

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