Sempre na quinta-feira antes do carnaval.

O apito do trem da festa se mistura, nesse mesmo instante, ao som da batucada.
Pela janela, a paisagem viaja pelo olhar atento do meu tio, o Velho Sinézio, aquele da rua Hervália, enturmado com os estudantes, sobrinhos e amigos.
De tempos em tempos, as paradas nas estações completam a batucada com a culinária. O vendedor de pastel, o cheiro da garapa fresquinha, o farto almoço da cidade de Contria.
Era quando a gente pegava o trem de ferro de Belo Horizonte para Pirapora, uma moçada animada. Alegria e folia na mala. Nos olhos, a cor do Rio São Francisco.
O trem da festa viajava pela Central do Brasil e atracava na praça do coreto. Ela passava no quintal de vó Bilu e de Silvano Ribas, no Salão de “Come Cru” e se espalhava pelas ruas calçadas com pedra.

Muitos blocos sujos e irreverentes, cada qual representando o cotidiano, fazendo piada com os acontecimentos políticos.
O cortejo de carnaval também é de Encantarias desde sempre , como celebração de liberdade e da alegria compartilhada, intensa, coletiva.
Mas é aqui, no Brasil, desde 1533 (naquela época chamado Entrudo), que ele se mistura à nossa identidade como um bordado vivo. O carnaval costura com lembranças, cores e sons que ecoam da infância até hoje.
Nas festas de rua e blocos, há algo mais profundo que os adereços: a oportunidade de estar junto, de viver o improviso, de celebrar alegria e o encontro.

É esse mesmo espírito que encontramos na arte que nasce do cotidiano. No quintal da avó, do grupo de leitura na cozinha, da roda de bordadeiras que compartilham afetos e tradições no alpendre de casa.
Assim como no carnaval, onde a fantasia conta uma história, bordados carregam a memória, um afeto.
Ambos nascem do coletivo. Nascem da mão que cria adereços, fantasias e do olhar sensível capaz de registrar movimentos dos passos e os fios da cachoeira ao bordar afetos.
Mesmo quando os blocos silenciam e os confetes desaparecem das calçadas, algo permanece:
o rastro de uma alegria compartilhada, o calor do encontro, o brilho da lantejoula, o perfume intenso do lança-perfume impregnado na roupa e na memória.
É esse sopro de vida, nascido do coletivo e dos momentos compartilhados, que seguimos bordando em nossos dias.
Porque, no fundo, cercar-se de beleza e cultura é celebrar o que somos.
Temos a Paz e a Festa como motivos da vida bordadeira.
Brasilia, 12 de fevereiro.







