A mão, a visão e o cérebro: tríade mágica no movimento do fazer e conhecer. Houve um dia em que nós humanos nos erguemos. Momento em que o olhar foi ampliado até a linha do horizonte e a centelha criadora iluminou olhares, caminhos e as mãos agora libertas, seguindo o caminho da ancestralidade ao digital.

Ali nascia o gesto? A possibilidade de traçar pinturas rupestres, de moldar o barro, de criar utilitários, costurar pedaços de couro transformando-os em vestes?
Nesse momento nós principiamos a transformar a natureza, a bordar a nós mesmos? O humano ainda é um bordado inacabado, em movimento nos gestos delicados, no fio que insiste em conectar, alinhavando o gesto como herança?
São tantas as perguntas…
“A arte existe porque a vida não basta”
A frase de Ferreira Gullar ecoa e nos leva a pensar nas mãos curiosas que indagam, inventam, oferecem e recebem, aprendem e ensinam, abrem trilhas do conhecimento.
Somos bordadeiros de nós mesmos quando inventamos a primeira agulha de osso ou madeira, quando procuramos cipós e fios começamos a entrelaçar cultura, memória e sobrevivência.

Gesto que permite bordar bonitezas, que se transforma em linguagem poética, encantamentos e resistência. Mas esse bordado ainda está em processo.
Fizemos descobertas e criamos tecnologias que facilitam a vida; mas foi com a arte que nos aproximamos da sensibilidade, da humanização e demos sentido à existência.

O barro modelado, a madeira esculpida, o algodão na roca a transformar-se em fios para a tecelagem e para o bordado dão testemunho de que viver é também transformar matéria em expressão.
Mas a trama da vida insiste em recomeçar
Nem sempre as mãos são guiadas pelo coração e pelos afetos. Ao invés de abrir caminhos para a amorosidade abrem espaço para medo, ganância e acúmulo, guerras, dores.
Parecem esquecer que a força maior está no encontro e na partilha.
Estamos diante de um tempo de recomeço, de busca pela PAZ, pela reintegração, pela harmonia entre os seres, que é o chamado para o Bem Viver.

E esse chamado se anuncia no gesto de mãos que afagam, que promovem e caçam beleza.
No ponto invisível que sustenta o desenho maior e humano surgem novas possibilidades com outros desenhos, passando da ancestralidade ao digital digital. É dele que vamos falar agora.
Da ancestralidade ao digital, a volta às origens pela resiliência
Para os muitos que perguntam como é que tudo começou pra nós, dizemos que foi do mesmo jeitinho que chega a aurora do dia.
Devagar, firme como os primeiros raios de luz vencendo intrépidos o breu da noite, até clarear de vez. E no dia que clareou de vez, nós nos organizamos como Grupo Matizes Dumont.
Lembro-me bem dos encontros no alpendre lá de casa, onde mamãe ensinava bordado entre risadas e café com bolo.

No mundo daquelas mulheres o bordado unia propósitos de vida de cada uma: espera do filho, o casamento próximo, o presente unindo alma e enredando o futuro com criatividade.
O Grupo Matizes Dumont sempre se espelhou nesta vivência do bordado no alpendre e valorizou o feito à mão, o toque no macio das linhas, a suavidade dos panos nas nossas Rodas de Bordado de Fiar Afetos.
Com essa bandeira percorremos a “terras brasilis” e “terras de além mar”. Promovemos encontros e reencontros entre pessoas com elas mesmas e com o bordado livre.
Tudo presencialmente, até chegar algo estarrecedor que nunca tínhamos visto antes!
Da ancestralidade ao digital: o bordado como linguagem da alma
E foi em abril de 2020, diante da pandemia da COVID 19, que compreendemos a gravidade dos efeitos e riscos psicológicos trazidos pela solidão de milhares de pessoas em casa, da ameaça de algo com o qual não sabíamos lidar, da dor pelas perdas de familiares.
Como profissionais de saúde e bordadeiras percebemos a necessidade de fazer alguma coisa para apoiar afetivamente, quem estava em sofrimento e situação de vulnerabilidade.
Foi assim que naquele ano criamos o inovador Projeto Borde Em Casa, no canal Matizes Dumont, do YouTube.

Levamos as diferentes linguagens da arte para aqueles encontros semanais on-line: música, prosa, poesia, bordado.
Arte por toda parte!
Incrível a quantidade de gente que aderiu ao projeto de passar pela quarentena com arte, beleza e boa prosa!
Da solidão à esperança: alinhavando afetos em tempos de incerteza
Neste ano de sobressaltos começamos lives toda terça feira, que se repetiram semanalmente até 2024 com grande sucesso de audiência.
Recebemos centenas relatos sobre o quanto nosso Projeto BORDE EM CASA, transmitido on-line aproximou as pessoas da sua própria resiliência, e fez bem ao corpo e à mente.

Entre arte e conversa boa, descobrimos que o digital também podia acolher. Milhares de pessoas começaram a bordar a própria resiliência, ponto por ponto.
As live eram uma bordação invisível entre mãos distantes e corações em sintonia.
Foram anos apoiando milhares de pessoas via on-line e juntos esperançar por tempos melhores em tempos de recolhimento.
Essa foi uma grande descoberta e uma grande conquista – o digital e a volta às origens pela resiliência.

Esta energia de troca inspira nossas criações e renova o fôlego de bordar e bordar e bordar! De lá pra cá outras iniciativas de ensinar pela internet são oferecidas, como tutoriais no YouTube, lives no Instagram, grupos de WhatsApp.
Resiliência bordada à mão em conexões online
No mundo todo, diante do desconhecido e assustador nos reinventamos cada um à sua maneira. No Brasil cresceu um movimento gigantesco do povo das linhas e agulhas, amantes do bordado.
Há quem explique que foi o excesso de telas de computador e celulares que reacenderam o desejo de tocar o mundo.

Concordo que há sim um cansaço e irritação diante do vazio das redes sociais, e que diante disso muitas mãos buscam a experiência do fazer manual.
Sem dúvida todo este conjunto de situações explica porque a inclusão do bordado na vida de muitas pessoas ocorre mais intensamente por meio digital nos últimos anos.
O bordado retomou seu caminho e agora conecta mulheres e homens separados por mares, terras distantes. Aproxima gerações que talvez nunca se encontrassem de outra forma.
Ocupa diferentes espaços na vida e no gesto cotidiano. De novo lembro o gesto primordial: o fazer com as mãos, com sentido e com beleza.
O bordado que se tornou comunidade e superação
Era setembro de 2020, e o mundo experimentava a Pandemia em sua forma mais dura e triste. O Matizes Dumont completava 35 anos e gente continuava entre linhas e pixels, um fio invisível tecendo histórias humanas nas lives de terça feira do Projeto Borde em Casa.
A arte de bordar nos ensina sobre recomeçar a todo instante, e pensando assim decidimos criar mais uma oportunidade para encontros.

Recomeçar nossa Roda de fiar encontros presencial, agora em um clube de assinatura. Uma comunidade de forma virtual.
Em todos esses anos uma coisa que aprendemos foi que compartilhar, dividir, aprender e ensinar, traz proximidade e estreita laços com gente de perto e gente de longe.
E nasceu o nosso CLUBE MATIZES DO BORDADO. Veio para fortalecer os encontros do BORDE EM CASA, seguiram entrelaçados até hoje.

Do quintal e do alpendre para o mundo
Bordado no alpendre, bordado no quintal de casa, e quem sabe debaixo de um florido pé de manga ou na bela sombra de um pé de abacate.

Assim mulheres e meninas brasileiras aprendiam e ensinavam a prática milenar com linhas e agulhas.
E pensar que agora milhares de pessoas redescobrem o prazer de bordar bem ali pela tela do celular! Bordados que antes ficavam parados nas gavetas agora têm visibilidade imprevisível.
Técnicas do bordado aprendidas em família são agora transmitidas a pessoa interessada em aprender- ensinar por meio digital.

O digital contribuiu para reativar a economia criativa e a prática do bordado. Reconhecer esse ponto é importante, pois o que era restrito a feiras locais agora se expande em marketplaces. O que dependia de oficinas presenciais agora floresce em cursos online.
Ancestralidade ao digital: fios da mesma trama
Pessoas de todas as idades encontram-se por meio do bordado. Há quem o faça como ofício, outras como passa tempo, há quem borde como caminho de superação, e até mesmo como uma nova forma de contar suas histórias. O bordado tornou-se fonte de pertencimento, autonomia e reinvenção de vida.

É necessário entendermos isso para ser ponte entre tradição e inovação.
Em nossas oficinas, no Clube Matizes do Bordado, em nossas lives, o tempo caminha em dois sentidos: olha para trás e honra a memória ensinada por mãos ancestrais; olha para frente e abre-se às infinitas possibilidades do gesto em direção a si mesmo.
E a Vida Bordadeira Continua. Mas preciso lembrar aqui: mesmo reconhecendo a importância do trajeto da ancestralidade ao digital em nossas vidas, o toque humano nenhuma tela substitui!
Até sempre!

09 de outubro, de 2025.







