Bordado e o cuidado na depressão

“A arte é a linguagem natural da humanidade e representa um caminho de conhecimento da realidade humana”. Essa afirmação de Fayga Ostrower nos remete à nossa experiência com o bordado e a Promoção da Saúde em sua dimensão da subjetividade. A prática com o bordado livre nos faz acreditar que a arte é mesmo um caminho de superação e de transformações pessoais e coletivas.

Anônimo Ouro – Foto Marilu Dumont fevereiro 2022

Não é de hoje que o bordado apoia pessoas em situação de sofrimento em razão de transtornos psicológicos em todo o mundo. Ao longo dos anos de trabalho e escuta sensível do Grupo Matizes Dumont chegam relatos que comprovam a efetividade dessa prática na promoção da saúde mental. Segundo jornais como The New York Times e Folha de São Paulo, estudos desenvolvidos pelo médico cardiologista Herbert Benson – Prof. de Medicina Integrativa de Harvard, relacionam as práticas de ofícios que envolvam a manualidade com o bem-estar psicológico.

O Brasil é o segundo país das Américas com o maior número de pessoas depressivas, segundo a Organização Mundial da Saúde. São 5,8% da população que por diversas razões adquiriram depressão com o passar dos anos.

Indizível tecelagem – João Cândido Villares – Foto Marilu Dumont fevereiro 2022

O processo saúde-doença relacionado a esses transtornos acima é complexo e tem muitas causas e combinações, que vão desde fatores genéticos, ambientais, psicossociais até a constituição do sujeito enquanto pessoa inserida em uma sociedade com diferentes valores e fontes de pressão sobre ele.

Esse mesmo sujeito muitas vezes é impactado com a produção em série, padronização do trabalho, com a complexidade do mundo – mundo das informações instantâneas. Viver em meio a esse conjunto de situações pode afetar as relações consigo mesmo e com o outro e carece que se adote estratégias para a superação dos desafios ou até mesmo para conviver com um transtorno vida-a-fora. Na atualidade e em tempos de pandemia todos nós precisamos encontrar caminhos para nos aproximarmos da beleza, da vida saudável, da alegria nas pequenas coisas. Coisas que passam despercebidas e para as quais muitas vezes nem se presta atenção.

Luzes e tramas – Foto Marilu Dumont fevereiro 2022

Cadê o tempo para apreciar o belo, para a expressão da criatividade, para o fazer com as próprias mãos? Nos distanciamos das pequenas coisas simples que nos trazem felicidade. E estamos mais abertos para descobrir o novo?

 

JÁ PENSOU QUE ESTE MOMENTO PEDE REFLEXÕES SOBRE A ARTE DE VIVER E O VIVER COM ARTE?

Nesse sentido é bom lembrar que a convivência com as diferentes expressões da arte  pode trazer benefícios para cada um de nós. Traz emoção, leva a uma mudança de estado de espírito. Traz encantamento, arrebatamento.

Arte de viver com arte Bordado Matizes Dumont
Foto: Marilu Dumont 2022

A arte como catarse, como alívio emocional que sentimos quando apreciamos obras culturais ou ao praticarmos manualidades. Coisas a se pensar…

 

O BORDADO É UMA VIVÊNCIA ALTAMENTE PROMOTORA DE SAÚDE EM DIFERENTES DIMENSÕES

Podemos citar duas dimensões da Promoção da Saúde: dimensão física e a dimensão subjetiva, relacionadas a aspectos psicológicos.

Foto: Dimensões – Marilu Dumont fevereiro 2022

Ao pensar sobre isso, lembramos que o crochê, o tricô, a tecelagem e o bordado no cotidiano brasileiro foram utilizados por centenas de mulheres anônimas que dentro de casa o usavam como prendas domésticas ou para melhorar a renda.

Circularidade e vazios – Croché de Sinhana Diniz Araújo
Foto: Marilu Dumont 2020

Em alguns casos, provavelmente, elas recorriam a essa manualidade como “sobrevivência psicológica” diante da pressão da sociedade sobre a alma feminina, representada pelo círculo fechado do bastidor.   Em diferentes momentos da cena brasileira mulheres e homens bordavam a sua história em situação de conflito, de dor, de busca de suas garantias de sobrevivência.

Emoções – Bordado Matizes Dumont
Foto: Marilu Dumont 2021

Além das bordadeiras desconhecidas e desvalorizadas, podemos encontrar na literatura referências de bordados do marinheiro João Cândido, líder da Revolta da Chibata que bordava no cárcere; Virgulino, o Lampião em cujo bando saber bordar era uma condição para subir de patente.  Além deles, Arthur Bispo do Rosário e José Leonilson também utilizaram o bordado como caminho.

Do mesmo modo, após a Primeira Guerra Mundial muitos veteranos dos países que participaram do ocorrido tiveram várias sequelas. E para reduzir as consequências da Guerra o bordado foi a terapia alternativa utilizada para veteranos ex-combatentes na Austrália (Emily Brayshaw no Jornal The Guardian, 25 de abril de 2017, How embroidery therapy helped first world war veterans find a common thread)

Ahh…Vida – Bordado Matizes Dumont
Foto Marilu Dumont 2022

Em sua dimensão física o bordado  é capaz de trabalhar as articulações, estimular e exercitar o nosso cérebro.

Na dimensão subjetiva nos fortalece porque alivia as tensões, diminui o stress, cria espaço interno de acolhimento, serenidade, descobertas, foco, memória, o que se resume em alegria, disponibilidade para a vida.

 

OUTROS PONTOS DO BORDADO E DO CUIDADO QUE FAVORECEM A RESILIÊNCIA PARA  DESFAZER OS NÓS DA DEPRESSÃO

Buscas – Foto Marilu Dumont 2022

  • Desenvolver a manualidade, estimular a coordenação motora;
  • Permitir que a criatividade e sensibilidade floresçam dentro de você;
  • Tirar um tempo para si, para as coisas que fazem bem;
  • Encontrar um refúgio para a correria do dia a dia;
  • Libertar-se dos medos e das críticas (suas e dos outros)
  • Quem sabe mudar algum aspecto no jeito como você sempre foi?

 

A ARTE COMO UM CAMINHO DE DESCOBERTAS, DE TRANSFORMAÇÕES E SAÚDE

Grafismos – Bordado Matizes Dumont
Foto Marilu Dumont 2021

Bordar não tem idade! Seja no trabalho, escola ou no período de aposentadoria, o bordado é uma das atividades mais indicadas na redução da ansiedade e no combate à depressão.

Apesar da imagem de que o bordado só é praticado por mulheres mais velhas, a realidade hoje é outra. Cada vez mais pessoas de todas as idades se interessam em bordar. São crianças, jovens e adultos, homens e mulheres que praticam o bordado  seja como uma forma de lazer,  de brincadeiras, seja como maneira de melhorar a renda doméstica, ou ocupando espaços nas galerias de arte.

Em Busca do Ser – Foto Marilu Dumont 2022

Bordar é uma gratificante oportunidade para alegrias e descobertas. Além do aspecto lúdico, de sensação de bem-estar e conforto, possibilita expressar sentimentos e registrá-los com agulhas e linhas.  Sejam eles de medo, de raiva, de tristeza, transmutar em movimentos de superação, de redescobrir-se criando novos recursos e melhorando a autoestima e confiança.

Nas Rodas de bordado – ou Bordando em roda utilizamos a Vivência psicopedagógica (A)Bordar o Ser,  que promove escuta acolhedora, vínculo e integração – palavras-chave em qualquer processo terapêutico, e isso contribui muito para o atendimento de pessoas com ou sem transtornos psicológicos.

No desenvolvimento dessas rodas de bordado muitas participantes tinham sinais leves a moderados de depressão, ansiedade, e posteriormente relataram que o bordado contribuiu para significativa melhora. Isso porque o bordar traz alento e reorganização criativa nas circunstâncias vividas, e pode auxiliar as pessoas com traumas e outros transtornos psicológicos pela oportunidade de aproximação com o Ser sensível dentro de cada pessoa, o que contribui na busca da superação da dor.

Dobras da alma – Bordado Matizes Dumont – Foto Marilu Dumont 2021

SUGERIMOS QUE NO CASO DE DEPRESSÃO OU QUALQUER OUTRO SOFRIMENTO MENTAL PROCURE AJUDA MÉDICA E OU PSICOLÓGICA.

ENCONTRANDO ALGUMA DIFICULDADE PARA LOCALIZAR UM PROFISSIONAL BUSQUE AJUDA EM ALGUM SERVIÇO SOCIAL.

ALÉM DISSO LEMBRE-SE QUE O APOIO DOS AMIGOS É ALGO MUITO BOM PARA AJUDAR A ENCONTRAR SEUS CAMINHOS.

 

Esta nossa conversa aqui é também para convidar você para o desafio de arriscar-se, de tomar contato com o seu potencial criativo, para ampliar o conhecimento de si mesma por meio do bordado. Atividades como essas podem ser uma das suas práticas de cuidado, aliviar esse estresse desnecessário do dia a dia.

Festa. Bordado Matizes Dumont – Foto Marilu Dumont fevereiro 2022

Pelo cuidado podemos cultivar um olhar amoroso a partir do nosso corpo, que é nossa primeira casa. Como disse o poeta TT Catalão “o meio ambiente começa no meio da gente”.

 

 

 

Quer ler mais artigos da Matizes Dumont? Saiba mais e continue com a gente.

 

Publicado por:

Publicações relacionadas