Meu bordado em movimento começou há 70 anos em algum lugar bem na beira do rio São Francisco. Na pequena Pirapora a gente aprende o que é um rio de afetos e seus movimentos.
Descobre-se cedo o sentido da viagem no percurso do rio. Águas que às vezes encachoeiradas, outras em funduras ou em remanso. Cada um no seu tempo. Nos tornamos pessoas com forma de interagir com o mundo focados na experiência física, no tato e no movimento.

Movimento tem vários sentidos e significados: mobilidade, movimento, cinestesia. Posso chamar minha própria experiência de cinestésica, por desde sempre acolher a percepção de movimento como algo importante, de “corpo todo”. Por isso o Bordado em Movimento
Na minha terra um rio sobe no Mapa do Brasil com alegria, vigor e renovação. Nesse movimento ensina a nós barranqueiros que viajar tem esse sentido de alegria, de coragem de seguir em frente e o encontro com o improvável a cada volta da estrada ou curva do rio.

Talvez por conta disto, colocar linhas e agulhas na mala faz parte da vida bordadeira nossa de cada dia e empolga sempre.
O Bordado em Movimento é inerente à prática do Matizes Dumont. Quando viajo dedico um tempo a olhar em volta, muitas vezes redescobrindo o que tenho guardado e o que carece de ser levado. E tenho sempre um bordado pra levar pra passear – seja pra principiar ou pra continuar a bordação.
Levando a prática criativa pra qualquer lugar
Acostumei a ter umas caixas empilháveis e de um tamanho que posso organizar em uma mala. Nelas levo meu cuidado e o desejo de ter comigo um pouco de minha casa.
Na verdade, tenho gavetas e gavetas de linhas, e quando chega a hora de viajar sempre olho pra peça que estou bordando com olhar sensível da planejadora que também mora em mim. A organização criativa faz parte do planejamento, que é pra não esquecer nada na hora de fechar a mala – nem os meus sonhos.

Esta organização do material para o Bordado em Movimento garante que não me desalinhe nem por dentro nem por fora. E longe de mim deixar solto o fio de mim mesma!
O Bordado em movimento é uma forma afetuosa de seguir presente em si, mesmo fora de casa.
Na minha casa o bordado tem seu lugar num espaço cheio de meadas, fios de todas as espessuras. Ali tem a luz natural que preciso, estou cercada de memórias. Quando estou na estrada tenho que me reorganizar.

O que levar para o bordado em movimento
Levar o bordado na bagagem é preparar um pequeno ritual portátil de afeto e criação. Um conjunto de materiais que precisa ser prático, mas também íntimo, quase como levar um pedaço de casa junto com você.
Monte o essencial
Escolha um projeto pequeno — de preferência já iniciado ou com poucas cores. Assim você reduz a quantidade de fios, evita o excesso de peso e mantém o bordado leve, como deve ser.

Lembre-se de incluir:
- um bastidor leve (se você costuma usar);
- uma tesourinha de ponta arredondada (se for levar na mala de mão);
- agulhas extras;
- cartelas ou borboletas organizadoras para os fios;
- prendedores ou elásticos para manter tudo no lugar.
Dica: prefira despachar o material completo, mas se levar a bordo, mantenha só o essencial.

Ah, e não esqueça um lápis ou caneta que apaga, para rabiscar ideias inesperadas. Se possível, leve sua peça já riscada — isso economiza tempo e evita frustrações.
Pense na organização para o seu bordado em movimento
Seu material pode estar em uma caixa, um nécessaire resistente ou até mesmo em uma bolsa de viagem. O importante é que o material esteja protegido e fácil de acessar. Organização é liberdade.
Chegando ao destino

Encontre o seu cantinho. Pode ser uma poltrona perto da janela, uma cadeira na varanda ou até um banco no jardim. Só evite a cama — sua coluna agradece. Adaptar o espaço de bordado é também uma forma de dizer a si mesma: “aqui também posso me sentir em casa.”
Bordado em movimento
Há dois tipos de bordado em movimento: o de dentro e o de fora. O interno, que é busca, silêncio e mergulho; e o externo, quando o bordado acompanha sua viagem, e deixa-se banhar pela mudança de cenários. Os dois podem viajar juntos.

Bordar na varanda de frente para o mar, na sombra de uma árvore no interior ou até num quarto de hotel simples pode transformar a textura do tecido, dar outra luz às cores e até ressignificar o que você borda.
A liberdade do improviso
Viajar e bordar é permitir-se criar sem tanto controle. Muitas vezes, são os improvisos que guardam mais alma. Uma linha esquecida pode abrir espaço para uma nova cor; um cenário inesperado pode inspirar um novo ponto.
Viajar bordando é alinhavar o invisível, a luz do caminho e, no fim, nos lembra que é necessário deixar tocar-se pelo novo.
Brasília, 12/9/2025








