Mãe d’Água, Iara, Uiara, Sereia, Iemanjá, Janaína? Senhora das Águas, Mãe das Águas, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora Aparecida? Tantas mulheres que fazem parte das narrativas da história oral brasileira, entre povos ribeirinhos e de beira-mar. Ser de tantos nomes, trazidos de terras de além-mar, estão presentes em tradições europeias e africanas. Aqui no Brasil elas todas fazem parte da mistura entre ritos, lendas.
A Mãe d’água está sempre presente no imaginário dos ribeirinhos do São Francisco. Para nós barranqueiros a Mãe d’Água representa muito mais do que uma lenda folclórica. Ela simboliza a própria essência das águas que sustentam seus modos de vida. Sua presença no imaginário popular reflete a importância vital que os rios têm para a sobrevivência e cultura desses povos ribeirinhos.
No nosso imaginário é uma mulher de pele e cabelos claros, moça bonita da cintura para cima, peixe da cintura para baixo. Mora nas profundezas dos rios e é conhecida por sua beleza, voz encantadora e cheia de riquezas.
Contam que ela aparece sobre uma pedra ou uma ilha, cantando faceira com seu espelho na mão. O canto é de sedução para o barqueiro que passa, o marinheiro ou viajante desavisado para saber dos segredos do rio. O cativado enamorado precisa ter muita força e coragem para retornar das funduras de um remanso da sereia.

Na curva do rio. Bordado inédito de 2008. Matizes Dumont sobre
desenho de Demóstenes Dumont Vargas Filho
Acredita-se que a Mãe d’Água usa seus atributos sedutores para atrair homens que navegam ou estão às margens dos rios, levando-os para sua morada subaquática. Estaria essa crença reforçando a noção de respeito e reverência de que se deve ter pelas águas, evitando sua poluição ou desperdício?

Mãe D’Água Barranqueira, 2005.
Bordado Matizes Dumont sobre desenho de Demóstenes Dumont Vargas Filho
Para estudiosos da Cultura Popular, a Mãe d’Água é uma figura central na cosmovisão desses grupos, conectando-os espiritualmente com os rios que lhes dão sustento. Ela incorpora a importância da água para a sobrevivência e a necessidade de proteger esse recurso essencial.

Mãe D’Água, 2018. Bordado Matizes Dumont sob desenho de Demóstenes Dumont Vargas Filho
Nesta obra que apresentamos hoje, Mãe D’Água, os artistas do Matizes Dumont recontam com suas agulhas e linhas a história oral que escutaram quando crianças ao cair da noite – nas horinhas mágicas de contações de histórias, na beira de uma fogueira.
A tela foi bordada sobre desenho de Demóstenes. Na composição foi utilizado tecido artesanal do tear mineiro, sobre o qual foi usada a antiga técnica de aplicação, rebordada com fios de lã e seda, com pontos em fios soltos e malabares do bordado livre e contemporâneo. Essa obra integra a coleção Entre Rios-Entre Nós, e foi exposta em Exposição do mesmo nome no Museu da República de Brasília em 2018.
Brasília, 24/5/24
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