
Foto: Marilu Dumont, 2021
(…) “Sem mim, a humanidade teria perdido a memória. E, possivelmente, não ficaria sabendo que Deus se revelou a ela. Sou portador de epifanias e sonhos, tragédias e esperanças, dores e utopias. E sou também uma obra de arte, dependendo de como os meus autores tecem e bordam as letras que preenchem as minhas páginas. Livre e lido, sou o livro.”
Escolhi esse texto de Frei Betto porque ele diz tudo e mais um pouco sobre o nosso amigo livro. Na história da humanidade, o objeto livro surge quando começamos a criar dentro de nós, a ideia de continuidade, de pensar naqueles que virão depois de nós e de querer que eles tenham informações sobre o momento em que vivemos. Essa vontade de compartilhar é inerente à natureza humana.

Foto: Marilu Dumont, 2021
Acho até que o sucesso do passa-e-repassa frenético de mensagens nas redes sociais seja uma versão meio tosca desse desejo visceral de interagir com o outro, de contar da gente, de querer saber da vida alheia – que, no fim das contas da peneira cósmica – é tudo uma vida só: a vida humana.

Livro: Metrópoles. Autor: Zé Cesar. Foto: Paulo Rezende
Movidos por essa vontade lícita de guardar o conhecimento e passá-lo de geração em geração, fomos deixando marcas em diferentes linguagens: símbolos rupestres, pinturas, músicas e, é claro, bordados!

Imaginário do Rei, Bené Fonteles. Fevereiro de 2013
Portanto, embora a escrita seja muito mais que palavras, o surgimento do livro foi uma consagração da linguagem escrita, fortalecendo o mundo misterioso das palavras.

Foto: Marilu Dumont, 2022
Ao celebrar o livro, texto e têxtil vem à minha memória e me aproximam de outras escritas e leituras.
Em abril temos duas datas para lembrar a importância do livro: no dia 18 o Dia Nacional do Livro Infantil, e no dia 23 de abril o Dia Internacional do livro. Ambas as oportunidades para marcar conquistas na qualidade de vida, seja para ressaltar o papel da leitura no desenvolvimento da criança, ou no cotidiano dos adultos.

Foto: Marilu Dumont, 2022
A leitura nos permite voos da imaginação, acessar a sensibilidade, criatividade, memória, crescimento de vocabulário. Além disso, sempre ouvi que ler contribui para melhorar a escrita, e certamente o bebê que ouve histórias terá mais facilidade na alfabetização!
Desde muito pequenos, nós do Matizes Dumont recebemos texto e têxtil em imagens com pequenas frases que mamãe bordava, trazendo escritas diferentes nas pequenas fronhas onde pousavam nossos sonhos.
Lembrar desse tempo me aproxima de outras escritas e leituras. Nas páginas da vida escrevemos nossa história cheia de emoções, como aquela imagem bonita de um caderno ou de um tecido em branco onde a gente vai transcrevendo as emoções.

Foto: Marilu Dumont, 2021
Nosso fascínio pelos livros foi tecido desde cedo. As chegadas de nosso pai, depois das longas viagens, eram coloridas de alegria e da curiosidade para ler os almanaques que ele trazia. Notícias do mundo além do ‘velho Chico’ atiçavam as crianças ribeirinhas, donas de uma imaginação que já operava além da conta!

Almanaque – Foto: Internet
Daí que foi muito natural trilhar o caminho de bordar a palavra de escritores brasileiros. O nosso primeiro livro bordado em 1988 é também o primeiro livro ilustrado com bordado que se tem notícia. Antes apenas os maravilhosas tapeçarias de Bayeux, datados do século XI, que descreve os a conquista da Normandia – a batalha de Hastings.

Livro Rebelião das Raposas
O livro intitulado “Rebelião das Raposas”, de autoria de Sávia Diniz Dumont, teve a sua primeira Edição para um projeto especial do INCRA, sobre Reforma Agrária. Em 1996 foi reeditado pela Editora Dimensão.
Bordando palavras

Foto: Matizes Dumont. Foto: Marilu Dumont, 2017
Se você quer saber como é o processo criativo de ilustrar palavras de outra pessoa, eu digo que a resposta merece outro livro. Mas posso dizer que tem a ver com uma concepção bem abrangente do que seja leitura.
Na Roma antiga, o verbo “ler” – do latim legere – além de ler, também podia significar “colher”, “recolher”, “espiar”, “reconhecer traços”, “tomar”, “roubar”. Para os romanos, então, ler era muito mais que decodificar e compreender os discursos. Ler era também entrar nas cavernas ocultas das entrelinhas e capturar aquilo que não está tão explícito. Concordamos com essa visão.

Livro: Harmonia das Cores nos fios do Bordado – Autora: Marilu Dumont. Foto: Marilu Dumont, 2021
Ser leitor é ser um catador de pistas, ir e voltar, olhar de longe e de perto. A história tem que chegar no sangue e adentrar a alma. Nesse exercício, o fogo criativo começa com pequenas fagulhas até virar imagem em ação, dando origem aos traços dos bordados.

Livro: O Imaginário do Rei. Autor: Bené Fonteles. Foto: Marilu Dumont, 2022
Quando o mundo virtual e a internet começaram, alguém teve a ousadia equivocada de afirmar que os livros acabariam. Esqueceu que vida é movimento e transformação constantes. Hoje, qualquer definição de leitura e de leitor deve incluir todos os meios e linguagens. Quando bordamos um texto, uma história, uma narrativa, estamos fazendo um pacto de cumplicidade com as palavras do autor. Um pacto para que o leitor absorva a inspiração primeira do autor e nossa interpretação artística da ideia.
Ilustrar palavras e aproximar pessoas de outras escritas

Livro: O menino do rio doce. Foto: Marilu Dumont, 2021
Em relação ao livro infantil, nossas transcriações bordadas para ilustrar palavras em livros sempre tiveram a intenção de aproximar, pessoas de todas as idades, das diferentes formas de linguagens, de outras escritas cheias de emoção.

Livro: Exercícios de ser criança. Foto: Marilu Dumont, 2021
O que a gente quer tocar é a criança dentro de cada um e a arte tem esse poder. Por mais que o texto exija uma reflexão mais madura, a imagem de um bordado evoca uma alegria interna adormecida na criança que todos temos em nós.
Essa alegria que o bordado traz ao texto pode transformar completamente o estado de espírito do leitor.
Não somos os mesmos todos os dias… a cada amanhecer diferentes surpresas podem nos emocionar. Muitas vezes pegar um livro é fazer check in para voar em mundos encantados e trazer alívio para situações difíceis.

Foto: Rui Faquini
Ao folhear um livro bordado, as mãos sentem essa vida que escorre pela linguagem das linhas. O que a gente borda é reflexo das escritas em nossas almas. Afinal, o corpo humano, por ser vivo, vai vibrar de acordo com as coisas vivas. Somos bordadeiras de histórias…e se a narrativa é infantil ou não, pouco importa. A arte não vê idade.
Os vivas de hoje vão para os diferentes artistas contadores de histórias bordáveis!
É realmente incrível a sensação de ler um livro com ilustrações bordadas. Um vendaval de sensações. Parabéns á família Dumont pioneira nesse metier!! Que continuem inspirando e encantando o mundo!
Que texto lindo!!!!!!!!
Acho Divinas essas publicações. Tenho dificuldade para acompanhar via digital e tb para imprimir. Vocês vão lançar esses livros impressos? Gostaria tanto. Amo livros de papel.
Oi Glória, nós já temos alguns livros lançados, confira em nosso site no link abaixo:
https://www.matizesdumont.com/collections/livros
É um prazer fazer parte deste grupo! Parabens pelaqualiddae das lives e dos materiais