Hoje peguei minhas anotações em folhas de papel das cores sépia. Umas em antigos cadernos, cadernetas, outras em folhas soltas.

Cadernetas Foto Marilu Dumont
Nas gavetas, entre linhas e agulhas, retomo o tempo vivido e as cores por onde andei. O tempo vivido borda em policromia, e foram muitas as cores que andaram e ainda andam em mim! Vou relendo algumas, dou risadas, viro a página. Outras tomo em recontos.
Ao longo de cada página do meu tempo e agora na maturidade, sigo a me encantar com cantigas do vento e assobios das linhas do horizonte ao amanhecer.

Cadernos entre luzes. Foto Marilu Dumont
Acordo as curiosidades das auroras refletidas na janela. Exercício cotidiano para enxergar desde o quase invisível que habita entre o real e a fantasia ao indizível mundo das cores. Acolho o luzeiro do dia entre os azuis do céu de Brasília.
Ainda tenho em mim aquela menina que catava pequenos toás no fundo do córrego para colorir as pedras da porta de casa, que corria atrás do luzeiro dos vaga lumes – pirilampos que lampejam transformando em manhazinhas as noites mais escuras.
A cor e o tempo vivido
Viro outra página e encontro alinhavos. Banho na água branquinha de um córrego, viajo pela estrada de ferro. Tomo café na caneca de ágata, olhos arregalados vendo a Serra do Curral. Aproveito as despalavras do vento 51 anos depois na praça da estação do trem de ferro.
Colho uma folha teimosa em minha roupa, pego a mala e uma sacola de palha de buriti com a matula de bolos e biscoitos e danço.

Obra Dançando. Grupo Matizes Dumont. Clique Aqui para acessar.
O Belo Horizonte me esperava. Novas experiências da cor começavam a ser bordadas em mim ali mesmo aos 25 anos de “braçadas de rio”.
Eu que já tinha ido muitas vezes à cidade grande, daquela vez, ao chegar na estação, surpreendi-me com os cinzas do concreto, e o branco discreto e imponente do edifício Acaiaca.
Aos poucos será necessário aprender com a luz nova do lugar – afinal, era uma mudança e tanto! Aquele lugar agora seria a minha casa caiada de esperanças.

Obra Mulheres que Bordam Entre Rios. Grupo Matizes Dumont. Clique Aqui para acessar.
Como ribeirinha, procuro logo minha principal referência: cadê o rio daqui? No caminho da nova casa, vi o ribeirão Arrudas e o córrego do Leitão, que naquela época ainda refletiam o azul do céu. Por anos e anos fui acompanhando suas águas se turvarem até serem encaixotadas.
E da vida nova que começava, tenho lembranças da efervescência cultural e do alumbramento com os tons dos longes azulados das montanhas e do sol fazendo garatujas nos telhados dos casarões que inundaram meu olhar.
Ando pelas ruas devagar, descubro belezas nas fachadas e platibandas com desenhos e cores marcadas com as extraordinárias marcas do tempo. Minha alma se farta em delicadas manhãs de abril, que na capital da minha terra são emolduradas pelos verde-azuis da Serra do Curral. Com elas, bordo ainda o desafio dos longes azulados.
Novos amigos fazem-me descobrir as incríveis cores de minerais. Vejo pela primeira vez, pedras tão diferentes – amostras e gemas com formas e outros coloridos da natureza. Ganho deles pequenas amostras: um incrível fóssil de besouro cravejado de pirita sobre um feldspato de um branco lindo.

Foto de Marilu Dumont.
E tantas as cores daquelas pedras! – do violeta da ametista e da fluorita, às coloridas opalas. Turmalinas negras em formato de agulhas, e a pequeninas ágatas, a pedra da amizade. São meus encantos até hoje: os caramelos de um pedaço circular de árvore petrificada, o dourado do olho de tigre, a pedra da liberdade. E o que dizer dos avermelhados e alaranjados do jaspe e da dolomita? Ainda guardo algumas dessas pedras até hoje. São lindas e inspiram os meus dias, sempre que o olhar passa por suas cores.
Brasília, 21 de junho de 2024 – exatos 51 anos depois de chegar a Belo Horizonte
Interessante ler esse artigo, sou nascida e criada na serra do curral, no caso a cidade é o horizonte e a serra minha casa ❤️