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A linha invisível entre Arte e Memória Afetiva

  • 03/03/2025

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A arte e a memória afetiva estão entrelaçadas por uma linha invisível, delicada e poderosa, que costura nossas emoções ao tempo. A criação artística é um fio que nos liga ao vivido, ressignificando lembranças e transformando sentimentos em expressão visual.

No vasto universo da criação artística, a memória afetiva ocupa um papel central, pois carrega as histórias individuais e coletivas que delineiam nossa percepção do mundo. Pinceladas, esculturas e os fio bordados são notas silenciosas como cantigas dos afetos, ou uma narrativa tecida com paciência e paixão. Dentre as diferentes linguagens da arte, as manualidades como esculturas, tecelagem o bordado carregam uma carga emocional da ancestralidade que vai além do estético.

Bordado com crianças brincando em uma árvore, uma amostra de Arte e Memória.

Obra Azulências. Grupo Matizes Dumont. Clique aqui para acessar a obra.

A memória afetiva é uma construção subjetiva, um repositório de emoções que resgatamos ao longo da vida em resposta a experiências sensoriais. Um cheiro, uma música, uma textura ou um tom de voz são capazes de nos transportar a momentos marcantes da infância, da juventude ou de encontros inesquecíveis.

Bordado com crianças brincando de cirando, uma amostra de Arte e Memória.

Ciranda dos Meninos. Foto Arnold Baungartner. Clique aqui para acessar a Obra.

Por meio da arte, essas recordações são reconfiguradas e ressignificadas, e vão alinhavando o Ser que nos tornamos. Assim é que ao criar ou contemplar uma obra de arte torna-se um ritual de conexão com o passado e com os valores que nos definem. E no fim, toda criação carrega um pedaço de quem a fez – e de quem a observa com o coração aberto.

Costuras da memória e dos afetos

Existe um instante na vida em que um cheiro, uma textura ou um som nos transporta para um tempo que não existe mais – mas que, de alguma forma, nunca nos deixou. Você já sentiu isso?

Exercício de Ser Criança - Pipas. Coleção: Brincadeiras - Crianças. Nessa obra temos em vista um criança correndo atrás de pipas, uma amostra de Arte e Memória.

Obra: Exercício de Ser Criança – Pipas. Clique aqui para acessar a Obra.

A memória afetiva é esteio, é energia na construção da nossa identidade. Ela se manifesta por meio de recordações que evocam antigas emoções, configurando a forma como nos conectamos com o mundo e com os outros.

O invisível Ser. Foto Marilu Dumont 2023.

Cada um de nós carrega esses fios invisíveis onde se enredam as memórias que marcaram nossa existência.

A arte, por sua vez, tem o poder de enlinhar essas memórias, materializando-as e tornando-as disponíveis. Desde a literatura, a pintura, a música, cantos de trabalhos, teatro, esculturas e bordados, a arte entrelaça passado, presente e futuro, perpetuando histórias e sentimentos.

Memória afetiva e identidade: a essência do que somos

Seriam nossas histórias pessoais escritas no corpo e na alma – ou de corpo e alma? De um jeito ou de outro, são registros emocionais que influenciam diretamente a percepção que temos sobre nós mesmos e do mundo. Essa forma de memória armazena recordações, carrega significados e significantes que influenciam nosso comportamento e relações sociais.

Emoções em rodopio. Foto Marilu Dumont.

Segundo o sociólogo Maurice Halbwachs, a memória individual é fortemente influenciada pelo contexto coletivo, ou seja, nossas lembranças são continuamente moldadas pelas experiências compartilhadas em grupos sociais. Nesta linha de pensamento, a arte apresenta-se como um elo entre a identidade individual e a memória coletiva, ressignificando momentos e experiências por meio da expressão criativa.

A relação entre arte e memória afetiva é particularmente visível em manifestações culturais que se perpetuam por gerações. Cantigas populares, contos transmitidos oralmente e obras visuais carregam em si um testemunho do tempo, permitindo que aqueles que as apreciam sejam transportados para instantes marcantes de suas próprias vivências.

Essa conexão sensorial e emocional fortalece a identidade cultural e pessoal, reforçando laços familiares e comunitários.

Como algo vivo, a arte dialoga com o mundo, absorve histórias, sentimentos e experiências

A arte é um organismo pulsante, sempre em transformação. Ela respira nos gestos de quem a cria, brilha nos olhos de quem a contempla e nos sentidos de quem a sente.

Transformação do fio. Ffoto Marilu Dumont 2025.

Diferente de algo estático, a arte se move no tempo, se refaz nas mãos de cada pessoa que a toca, se renova a cada olhar. Por conta disso uma obra de arte nunca está realmente “pronta”. Assim como a vida, ela continua seu percurso e vai se ressignificando ao longo do tempo. Uma pintura envelhece, um bordado desfia, um tecido desbota — e nesse processo de mudança, a arte segue viva, adaptando-se, se transformando.

Neste diálogo, o romance pode remeter a uma infância vivida em uma cidade distante, uma melodia pode trazer à tona lembranças de momentos compartilhados com entes queridos, e uma pintura pode representar o vínculo afetivo com um lugar especial. Para mim, por exemplo, as cores são “recontos” da memória. Sinto na cor mostarda o acobreado do melado de cana no tacho, o azul tem som de cachoeira, o violeta lembra a linha e os rosados da aurora, o alaranjado tem som de risadas.

A Transgeracionalidade nas Artes: saberes que se reinventam

E será que a arte nasce do nada? Ou ela se transmite, se transforma e se reinventa ao longo do tempo, atravessando gerações como um delicado fio que conecta o não tempo?

O não tempo. Foto Marilu Dumont 2024.

O aprendizado artístico, em muitas profissões, acontece justamente nessa passagem entre o ontem, o hoje e o amanhã, entre mestres e aprendizes, entre avós, pais e filhos. Entre aqueles que, com suas mãos, perpetuam saberes. Acontece nos quintais, nas praças, em espaços de convivência. Por isso a convivência entre gerações é tão importante, e há que se ficar atento a isso.

Rabeca de Encantarias. Foto Marilu Dumont 2023.

Em diversas áreas da arte, essa transmissão transgeracional é essencial. Nos ateliês dos luthiers, onde a madeira ganha vida na forma de violinos e violões, rabecas, o conhecimento é passado de geração em geração, garantindo que o som dos instrumentos carregue ecos do passado. Nos estúdios de ourivesaria, as joias são criadas com técnicas que atravessam séculos, cada detalhe moldado por mãos que aprenderam com as gerações anteriores.

O Circo. Pintura Demóstenes Dumont Vargas Filho.

No teatro, “dinastias” de atores transmitem não apenas a técnica, mas também o amor pelo palco, uma herança que se manifesta no brilho do olhar e na entrega ao que fazem. E há, ainda, aqueles ofícios em que a arte surge no ritmo da vida cotidiana. Os artistas de circo que têm na circularidade do aprender-ensinar o seu cotidiano no picadeiro das emoções. Os carranqueiros do Rio São Francisco, esculpem figuras místicas na madeira, perpetuando uma tradição que protege os navegantes e conta histórias das águas.

As rendeiras do Nordeste e de Santa Catarina, com suas almofadas de bilros e fios que passam leves entre os dedos, seguem um saber ancestral que transforma gestos simples em filigranas delicadas.

Renda. Foto Marilu Dumont.

 

Bordadeiras, muitas vezes aprendendo com mães e avós entre as afazeres domésticas, conferem hoje inovação a uma arte milenar que foi praticada anonimamente por centenas de mulheres ao longo dos tempos.

Duas gerações de bordadeiras Matizes Dumont celebrando Arte e Memória.

Duas gerações de bordadeiras Matizes Dumont.

É aprendizado que atravessa gerações, carrega histórias, valores e modos de ver e viver, permitindo que tradições se renovem. Seja no convite da madeira, no rendilhado dos fios, no palco ou no gesto ensinado com carinho, cada criação carrega um tempo que não se apaga. É quando são cerzindo elos afetivos que unem pessoa, territórios e culturas e garantem a nossa identidade. Quando expressamos nossa individualidade, mantemos vivas as vozes que nos precederam — e deixamos rastros para futuras gerações.

assinatura Marilu Dumont

 

03 de março de 2025.

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  • 03/03/2025

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Publicado por:

Marilu Dumont

Marilu é psicóloga, artista visual, arte-educadora, e sanitarista. É da segunda geração de bordadeiras do Grupo Matizes Dumont e sua história de vida é dedicada à integração entre arte, ambiente e saúde. Toma o bordado como forma de expressão e autoria no mundo, em vivências e processos de grupo.

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