Tempo de bordar água e vida no coração
Meu interior aflora
No destino de ser água
Que o Sol evapora
Pra depois chover
Ofereço a minha vida
Derramada em cachoeiras
(Hilton Accioli – Espelho De Água)
Para celebrar esse dom que a água generosamente nos dá, rebordei esse texto e selecionei a tela “Mulher que borda águas”, onde a mulher pesponta suas águas, sonhos e esperanças em intensidade de cores e movimentos.

Mulher que Borda Águas
Senhora de vales e montanhas, brejos, pés de serra, a água segue bordada nesta obra em sua poética fluida, com suas incríveis cantigas, murmúrios, risadas de cachoeira. Leve e sem forma, percorre o chão em meandros. Em sua carreira dissolve e rola pedras, pedrinhas, infiltra em fenda de qualquer tamanho e brota nas veredas depois da chuva. Assim, a “Mulher que Borda Águas” é a própria água nas representações em pontos soltos e leves, escorrendo em abundância tantos azuis sobre amarelos.
A origem da vida é fluida e líquida.

Milagre das águas – Demóstenes Dumont Vargas Filho 2018
A base de toda vida tem seu comecinho na forma sem forma da água. Interessante dar uma paradinha nessa reflexão…
A maior parte da água do planeta está oculta em misteriosos mundos subterrâneos, ou infiltrada em terrenos matizados de areia, cascalho e limo. A água nasce quieta em olhos d´água e ganha mundo em jornada incansável. Se for predestinada a ser cachoeira, ela deixa o silêncio de lado e flui na sua cantiga em alegrias, bordando vidas por onde passa. Quando se encachoeira, perde a timidez do corguinho e borbulha fogosa em estrondosas quedas. E tem as águas tão internas que são nossas veias a regar nossa alma e humanidade.
Levemente faceira ou perigosamente empolgada, revela-se líquida, pode ficar sólida e ainda sabe evaporar quando se enamora de nuvens, dançando ciclos amorosos de muitas vidas.
E quanto mais essa prosa fala de água, mais é possível perceber os aspectos comuns entre a mulher e a água.

Mulheres e águas – Demóstenes Dumont Vargas Filho 2018
O dom da vida, a adaptabilidade no exercício de múltiplos papéis na sociedade, a versatilidade de poder se renovar e ser feminina em diferentes vozes e faces de menina, moça ou mulher.
Pelas mãos da mulher, a vida transborda cheia de iluminações, cores e novos alumbramentos. A mulher, como as árvores, é incansável ser que borda águas para o renascer da vida. Mulher, Água, Árvore. Elas se organizam em forte pacto pela VIDA, sem medo como a moça barranqueira que sabe que “a margem é bonita, mas a correnteza é forte”.
Está com a tela “Mulher que borda águas” em sua frente? Vamos observar essa cumplicidade mulher e água. Tente absorver o semblante concentrado dessa mulher que borda fios d´água. Sinta a dança espiralada que emana de suas mãos tranquilas e atentas…veja como essas mãos bordam águas azuladas e céus amarelados. Há azuis nos amarelos e amarelos nos azuis. Imagem da doce mistura. Da diversidade que cria mundos sem fim. Nos fios que se alinham, um jarro florido reafirma a vida, a beleza das flores, a esperança de belos amanhãs!
Sabemos de nossa inconsciência quanto à urgência de fazer uso sustentável da água. Essa consciência é bordada no coração: água como bem querer, água como bem comum! Ponto a ponto precisamos nos educar sobre esses valores, citados por Vera Catalão em publicação de 2018, num caderno do Projeto Entre Rios . Enquanto reduzirmos a água a um mero ‘recurso hídrico’, deixaremos de pensar nela com a reverência condizente à grande dama da Vida.
Vamos fazer um ajuste consciente na forma como nos relacionamos com a água?

Desenho Demóstenes Dumont Vargas Filho 2018
Inspire-se na “Mulher que borda águas” e tome emprestado seu espírito por uns dias. Toda vez que lavar as mãos (e temos lavado muito nestes tempos!), sinta que sua pele é tocada por uma divindade de primeira grandeza. Conecte-se com ela ouvindo a música que ela toca ao jorrar livre da torneira. Valorize e honre cada gota sem desperdício algum.

Desenho Demóstenes Dumont Vargas Filho 2018
Em outro momento, prepare um banho de ervas – se possível, ervas frescas. Se quiser banho de limpeza, use manjericão ou arruda. Se preferir energizar-se, use alecrim. Macere as folhas e adicione água morna aos poucos, em quantidade suficiente para molhar dos pés à cabeça. Em cada fio de água que descer pelo corpo, sinta gratidão pela vida e deixe ir embora o que não deve ficar.
Neste dia em que celebramos a água, fica aqui o nosso chamado para a proteção de cursos d´água e nascentes.
Gente que borda entre rios cresce quando se junta!
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