
Dos quintais de Pirapora às memórias que nos habitam
A arte é um fio do não tempo que nos une ao vivido e nos alinhava os rumos do futuro. Cabe a nós garantir que ela continue sendo um elemento vivo, acessível e profundamente conectado à identidade da gente brasileira.
Nesse tempo de bordar e tecer jardins possíveis, como trazer a arte para mais perto da nossa vida? Seria por meio da aquisição de uma peça de arte, de um momento de criação livre? Por meio da educação das crianças e jovens, ou seria por um novo olhar sobre aquilo que já faz parte do cotidiano e a gente nem enxerga?
Quando a vida cotidiana se transforma em fios da arte

Penso que a arte não precisa ser apenas admirada. Ela precisa ser sentida, vivida e, acima de tudo, compartilhada.
Quando penso nisso, lembro da cultura do meu lugar, bem ali no Sertão das Gerais, onde o “São Francisco rumoreja”, a cidade adormecia ao som da cachoeira ou das serenatas, e amanhecia com os “dobrados” da banda de música.
Pirapora sempre foi pulsante, a vida era intensa como o rio e curiosa pra saber do que acontecia no mundo. As notícias chegavam com o apito dos Vapores, ou pela linha do trem de ferro. Chegavam com os almanaques da farmácia, com o rádio, e com o circo.

O saxofone de Luiz de Helenita, lembro bem, anunciava o Circo e Teatro José Bezerra como o “palácio de lona verde”. Era a alegria da meninada da minha geração.
Ali as primeiras peças de teatro, que nos motivaram a fazer nossas próprias peças de teatro com enredo contando histórias engraçadas da família. A história oral da família tem detalhes muito pitorescos e a gente encenava, dava risadas e os adultos assistiam empolgados.

Meus tios cada um deles trazia uma linguagem da arte para nossa convivência de quintal. Uns gostavam do canto dos passarinhos, do som da rabeca e da viola ou do barulhinho bom da colher de pau no fundo do tacho de doce de buriti.

Outros apreciavam também as músicas clássicas ouvidas na vitrola comprada da loja de Dedeco bem na praça do coreto.
Outro assobiava trechos de ópera debaixo do chuveiro. Da porta da rua até o pé de abacate podia ressoar desde Beethoven, Vivaldi, Villa-Lobos, à batida de uma caixa de Lundu ou cantigas de Folias de Reis.
Foi muito cedo que escutei “Carmina Burana”.
Pela janela, do outro lado da rua chegava o som da orquestra Ideal, de João Come Cru. Aquele endereço da rua principal da cidade é inesquecível com sua porta que só fechava às nove da noite.
A arte mora nos lugares, nos gestos e nas lembranças

Ahhh! E o Clube Literário Inácio Quinaud?
Foi criado por meu tio Domingos Diniz e outros jovens da cidade. Este era o espaço onde faziam suas poetagens, discutiam literatura de Afonso Arinos, Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Cecília Meireles, Jorge Amado e Drummond.
Naquela época éramos um grupo grande de adolescentes e resolvemos criar o nosso próprio Clube Literário, a que chamamos Clube Literário Domingos Diniz, em homenagem ao tio.
Lembro bem da infância e adolescência dessa minha Vida Bordadeira, vivida entre o quintal de vó Bilu, os festivais de poesia, corais, e o circo – espaços de encontro e inspiração.
A arte estava ali sendo vivida intensamente entre gerações “de mamando a caducando”.
No quintal de vó tinha conversa com papagaio de estimação que recitava Ascenso Ferreira: “Fitas e Fitas, Fitas e Fitas!”
Tinha alpendre, forno de lenha, pé de amora, mexerica da azeda de arear tacho, tinha poesia pelos cantos, pelos telhados antigos. Onde a gente se reunia pra contar de forma simples, quase infantil, das impressões do livro que lera por indicação da tia.
Do quintal e beira de rio ao Poema-Processo: espaço vanguardista em fios d’água

Aqui vou dar um salto até 1968, um ano difícil por aqui e pelo mundo afora. A gente ouvia tudo pelas ondas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Tantas coisas aconteciam, tantas indagações habitavam nossas cabeças e corações inquietos.
Ali, na cozinha da casa velha de adobe, na beira do fogão, intelectuais vindos de longe reuniam-se durante os Festivais de Poesia. Tinha meninos fazendo leituras, mocinhas ensaiando jogral, bordados, pinturas, tintas e barro pra construir o que a imaginação solta falasse ao pé do ouvido.
As ruas, as praças e a beira do rio eram o nosso verdadeiro espaço de vanguarda. A cidade se transformava em palco, a poesia ganhava corpo e a arte descobria outras maneiras de existir. Nas mesmas ruas por onde um dia caminhara o escritor francês Georges Bernanos, importante nome da literatura do século XX, agora circulavam poetas, ideias e novas formas de dizer o mundo. Era o I Festival de Poesia de Pirapora, o primeiro do Brasil. A cidade ribeirinha, acostumada ao movimento das águas, abria também seus caminhos à inquietação da poesia.
No ano seguinte, participamos de outro acontecimento extraordinário: o Desfile de Autores e Personagens da Literatura Brasileira, que integrou o II Festival de Poesia de Pirapora, o II Fespopi. Mais uma vez, a literatura deixou as páginas dos livros para ocupar o espaço público. Autores e personagens ganharam as ruas, e a cidade se fez lugar de encontro entre a criação artística e a vida cotidiana. A poesia não queria permanecer quieta, guardada entre capas e páginas. Queria caminhar, provocar, surpreender. Queria ser vista, tocada e compartilhada.

Minas Gerais teve papel importante na circulação e na consolidação do Poema/Processo, movimento de vanguarda lançado em dezembro de 1967, que rompeu com a tradição do poema centrado na palavra. Em vez de se apoiar apenas no texto verbal, propunha outras formas de criação: signos visuais, composições gráficas, projetos e matrizes manipuláveis. O poema podia nascer de uma imagem, de uma sequência, de um gesto. Podia abrir caminhos para sentidos que não cabiam na palavra escrita.
Pirapora e Cataguases tornaram-se lugares importantes nessa trajetória. Em Pirapora, especialmente durante o II Fespopi, em 1969, a experimentação poética encontrou as ruas, as praças e a participação dos estudantes. A cidade foi tomada por uma arte que desejava ultrapassar os limites conhecidos, misturando poesia, intervenção urbana e ação coletiva. O espaço público deixou de ser apenas passagem: tornou-se suporte, linguagem e parte da própria obra. Este foi “um dos momentos mais marcantes da vanguarda dos anos 60 no interior do Brasil, transformando o poema em uma ferramenta visual e de ação coletiva direta”.
O Desfile de Autores e Personagens da Literatura Brasileira
Esta foi uma das expressões marcantes dessa ocupação criativa da cidade. Sob a participação de artistas e poetas ligados à vanguarda e movimento concretista mineiro, críticos de arte, ensaístas, professores de arte, poetas, jornalistas.

Foram três Festivais de Poesia, que em diferentes momentos e pela minha lembrança estiveram lá: Adão Ventura, Plínio Filho, Murilo Rubião, Maristela Tristão, Lais Correia de Araújo, Zilá Correia de Araújo, Afonso Ávila, Wladmir Dias-Pino, Osvaldo André de Melo, Márcio Almeida, José de Arimatéia, Márcio Sampaio, Bueno de Rivera, Sinésio Bastos, Francisco Iglésias, Moacir Cirne, Ronaldo Werneck, Fernando Rubinger, dentre outros que fizeram a história juntos com a comunidade de Pirapora.
A Arte não precisa esperar por um espaço consagrado para existir.
Ali a literatura encontrou novas maneiras de apresentar-se ao público. Convidou o olhar sensível e amoroso. Cartazes, objetos e performances coletivas ajudaram a deslocar a poesia de seu lugar habitual, convidando as pessoas a experimentar a criação de outro modo. A enxergar o mundo de outra forma. Não se tratava apenas de representar a literatura, mas de fazê-la acontecer diante de todos, no movimento vivo das ruas.
Talvez seja essa uma das heranças mais bonitas daqueles festivais: a compreensão de que a arte não precisa esperar por um espaço consagrado para existir. Ela pode nascer na praça, atravessar uma avenida, encontrar o olhar de quem passa e permanecer na memória de quem a viveu. Em Pirapora, a vanguarda não ficou distante, encerrada nos debates de artistas ou nos limites de uma página. Ganhou chão, corpo e convivência, bem ali nas beiradas do “Velho Chico.”
Entre o rio que segue seu curso e as ruas que guardam tantas histórias, a poesia também foi deixando seus rastros.

Há experiências que não terminam quando o festival acaba. Permanecem em nós como fios invisíveis, alinhavando lembranças, abrindo novas perguntas e nos ensinando a olhar de outra maneira para o lugar onde vivemos. A arte, quando encontra a vida, já não pertence somente a quem a criou: passa a fazer parte de todos aqueles que, de algum modo, foram tocados por ela.
Arte e vanguarda que nos alinhava e fica em nós

A arte experimentada, vivida naquele interior de Minas, sempre foi espaço de encontro e transformação. Espaço e lugar que bordaram em nós a curiosidade, a esperança e a diversidade.
Desde os clubes literários Inácio Quinaud e Domingos Diniz, que nos fizeram viajar por mundos imaginários, até os teatros improvisados no fundo do quintal de vó, passando pelos corais que ecoam até hoje no salão paroquial e na minha alma, a arte esteve presente. Nesses espaços, a curiosidade nos moveu, a esperança nos sustentou e a diversidade se tornou fio e trama de uma experiência muito especial e pra vida inteira de uma geração de mocinhas e moços cheios de ousadia.
Considero que nesses espaços aprende-se que a arte não é um ato solitário. O livro compartilhado em um pequeno Clube Literário juvenil se multiplica em interpretações; a peça ensaiada no quintal se constrói no olhar do outro; a música cantada em coro só ganha força quando ressoa na soma das vozes.
Criar juntos é forma de expressão, um modo de estar no mundo, de construir pertencimento e de solidariedade ao outro.
Convívio com a arte – espaço onde descobre-se a beleza do improviso, o valor do erro e a alegria do compartilhar.

E assim, entre palavras, gestos e cantorias, seguimos alinhavando e entremeando sensações, reinventando realidades e reafirmando que a arte, antes de tudo, é uma forma de acolhimento, resistência e transformação.
Encontros, histórias contadas ao redor da fogueira, encenações, canções entoadas nos limites da voz nas folias de Santos Reis e nos blocos de rua do carnaval são belas e novas experiências. Decerto, ampliaram horizontes, fortaleceram laços entre nós e pespontaram a esperança.
A Arte precisa ser vivida. Precisa habitar nossos quintais, nossas ruas, nossas casas e nossas memórias. Precisa encontrar lugar no cotidiano, nos gestos, nos encontros e nos afetos.
O mais maravilhoso do mundo das artes é que ele não cabe em si e vai criando outros mundos, dentro e fora de todos que interagem com a Arte!
Brasília, 19/10/26







