O direito de inventar mundos

Uma caixa de papelão virava navio, casa, esconderijo. Um retalho de bom tamanho ganhava a forma de capa, bandeira ou vestido de boneca. Do varal de casa vinham as toalhas e os lençóis, que ora eram lona de circo, ora se juntavam para formar o chão de uma gruta feita de palha de buriti. O brincar começava e a gente nem sabia direito onde iria terminar.
A infância dá licença para cada um de nós inventar mundos com o que está à mão. E se a pedra podia ser um tesouro, o graveto era um personagem, a semente podia virar um boi ou uma onça-pintada. Sim, o paiol era um castelo, o quintal era o mundo e, do lado de fora, havia outros lugares a serem descobertos.
A criança brinca e experimenta a vida. Cria e modifica regras, inventa e reinventa histórias e, sem se dar conta, negocia sentidos. Na brincadeira, às vezes está sozinha; noutras vezes, chama o vizinho e o mundo inteiro para participar de sua invencionice.
Defender o direito de brincar é defender o direito de viver a infância em sua inteireza. Uma meninice que não seja apenas uma preparação para a vida adulta, nem ocupada por uma sucessão de atividades destinadas a produzir competências, resultados e desempenhos.
A vida inteira me acompanha uma inquietação: parece certo que o brincar deve parar quando a gente cresce um tiquim e vai para a escola?
Em algum momento, começamos a trocar as brincadeiras pelo que é sério, útil e produtivo. O brincar vai sendo adiado e fica para as férias, para os finais de semana, para os momentos em que todas as obrigações estiverem cumpridas.
E quando chega esse momento? É exatamente aí que o direito de inventar mundos também precisa ser reivindicado pelos adultos.

O lúdico como uma maneira de estar no mundo
É que o lúdico não mora somente nas brincadeiras de meninas e meninos. Pode estar na maneira como olhamos, experimentamos, criamos relações e nos aproximamos das coisas do mundo real.
Há uma diferença entre fazer algo seguindo um mapa e deixar-se surpreender pelo que acontece durante o percurso da linha solta. Entre executar uma tarefa e experimentar seus desafios, acolhendo as surpresas dos imprevistos.
O lúdico abre espaço para essa segunda experiência. Isso não significa viver sem régua e compasso, de forma descompromissada. Significa, sim, reconhecer que a existência carece de espaços nos quais a curiosidade possa conduzir a experiências de liberdade e criatividade. O lúdico nos oferece uma experiência que tem valor enquanto acontece.

Brincar: verbo que não deveria sair de nós
Um dia me contaram que brincar é uma forma de liberdade. Sobre isso, o bordado tem muito a contar pra gente também.
Uma linha percorre livremente o espaço no tecido. Junto com o ritmo dos pontos, as cores e as texturas formam outras imagens que não estavam previstas. Trazem pra perto o imprevisto, o improvável, e isso é encantador, mobilizador. O desenho ganha novos volumes e movimentos. Uma escolha conduz o fio e, depois, vem outra. Surgem os imprevistos na criação. Chamo isso de encontro entre intenção e descoberta. Quem borda sabe disso.
A curiosidade é essa casa onde moram os desafios e o brincar. Ela nos movimenta para experimentar outras formas de ver o mundo, perguntar, observar e descobrir. Por meio dela, a gente pode olhar para uma coisa conhecida como se fosse a primeira vez.
Às vezes, surge o medo do ridículo, que nos faz desistir de experimentar, de ousar, porque já passamos da idade pra isso. Quando, na verdade, brincar é uma maneira de estar no mundo. Mesmo com as responsabilidades, podemos abrir espaço para o improviso, o encantamento e a alegria de viver.
E há quem se pergunte: a criatividade desaparece com o tempo? Outra pessoa me lembrou que talvez apenas fique esperando pra que a gente volte a brincar.
A educação do olhar começa pela curiosidade

Sou do interior das Gerais e carrego uma intimidade com a natureza. Essa história de vida me dá um fio condutor próprio para observar o mundo. A partir dela, venho construindo, de pouquinho, algumas reflexões sobre a educação do olhar.
Afinal, brincar também é aprender a olhar. Quando a curiosidade nos leva a experimentar, observar e descobrir, nosso olhar se amplia. Passamos a perceber o que antes nos escapava. E essa experiência pode ser cultivada desde a infância.
Meus pais me estimularam a acolher o que estava em volta: gente, bicho, mato – os seres do cerrado. Era comum sermos desafiados a descobrir pequeninas coisas que antes não enxergávamos. Pelos caminhos, ao passar por uma árvore de torta, de tronco rugoso, era preciso reparar no desenho de seus galhos, na brincadeira de luz e sombra que dava volumes e profundidade.
Com o brincar acontece o mesmo. Quando brincamos, experimentamos outras relações com o espaço, com os objetos, com as pessoas e com as possibilidades que surgem. O olhar deixa de procurar apenas aquilo que já conhece. E isso também é uma forma de liberdade.
Experimentei isso ontem, no quintal de minha amiga Yara, contemplando pequeninas “flores de monturo” e lírios amarelos.
Sobre a linha solta

Confesso que sou um tipo de linha solta que ainda conserva a liberdade de descobrir para onde vai. Uma linha solta não é uma linha sem destino. Penso que brincar seja uma das maneiras mais bonitas de manter algumas linhas soltas na vida: não ter pressa de encontrar um desenho definitivo, não exigir que tudo faça sentido de imediato e permitir que a curiosidade nos conduza pelos caminhos inesperados.
No Matizes Dumont, quando terminamos um bordado, costumamos dizer:
“Que a linha solta nos guie sempre!”
Essa frase tem um sentido e um lugar especial entre nós. Ela vem junto com o exercício do bordado a fio solto e malabares, que é nossa prática do bordado livre das formalidades, técnica que desenvolvemos desde a década de 80.
Seu sentido vai muito além da maneira de trabalhar com os fios. A linha solta da alma representa uma disposição para seguir criando. Para não ficar preso ao desenho previsto. Para acolher o inesperado, viver intensamente, com liberdade, e permitir que outras veredas surjam a cada curva da estrada.
É também um desejo de manter viva a curiosidade, de não perder a capacidade de brincar, de experimentar, de continuar inventando mundos numa caixa de linhas com fios de cores e espessuras diferentes.
E que a vida não nos torne tão preocupados em arrematar todos os fios que acabemos esquecendo a alegria de brincar com eles.
Que a linha solta nos guie sempre!

Brasília, 06/11/2026







