O mundo que nosso olhar não alcança

Será que o mundo começa onde termina o nosso olhar? O maior desafio da arte de viver juntos é aceitar que o mundo não termina ali onde a nossa vista alcança. Ao nosso lado, há tantos e muitos mundos vivendo à espera de que aprendamos a vê-los. Esse é o grande esforço no nosso exercício da arte de olhar e viver juntos, com todas as nossas dessemelhanças.
Ah, o olhar!… vou principiar por ele. Sempre penso no olhar como algo fundamental seja naquela olhadinha pra dentro de nós mesmos, o olhar em volta, olhar o outro. Isso nos lembra a todo instante que viemos juntos nesta existência, e a isso podemos chamar de coexistência. E convivência é um exercício de descobertas.

Quantas coisas miúdas e cotidianas passam despercebidas! Aprendi a prestar atenção nelas com mamãe, que nos ensinava a olhar os jardins quase invisíveis do cerrado, do barranco do córrego e das pedras do cais.
Um dia, meus irmãos e eu descobrimos, no fundo do “riacho da porta”, as pedrinhas macias e coloridas de toás. Elas foram nossos primeiros exercícios coletivos de cor, desenhados nas pedras em frente à casa da fazenda Água Branca, que, para nós, sempre foi a fazenda Boqueirão.
Aprender a conviver é aprender a olhar

Eram muitas as experiências do olhar-sentir-criar-viver.Ali a gente vislumbrava brinquedos nas formas das sementes e nos movimentos do vento nos rosados do capim meloso.
A meninada saia a procura da matéria prima da alegria e das descobertas. Corríamos atrás das sementes aladas, que de tão ligeiras nos ensinavam a correr, a não temer os caminhos.

As formas, texturas e tamanhos tão diferentes, os cheiros nos aguçavam os sentidos e nos inspiravam a criar. Com aquelas pequenas descobertas, inventávamos personagens e contávamos nossas primeiras histórias. Nasciam ali nosso primeiro teatro e nossos primeiros ensaios para a vida.
Principiava, bem naquele lugar, nosso delicado aprendizado da arte de viver juntos. O cerrado nos oferecia a oportunidade de olhar, sentir e criar. Eram nossos primeiros movimentos de acolher o desconhecido, o invisível e o indizível.
Naqueles espaços e lugares aprendemos também que não precisávamos ser iguais nunca. Entre brincadeiras, encenações que a gente inventava e nem sabia bem o que era, entendemos que era preciso habitar as nossas diferenças, perder o medo de aventurar-se naquilo que somos.
Pensando em tudo aquilo, nas diferenças que voam nas asas e cantos dos passarinhos, me vem aqui na cabeça uma imagem bonita: cada pessoa é um território de experiências, afetos e memórias. Basta deitar o olhar e aceitar que existe uma paisagem inteira para descobrir, mesmo quando julgamos conhecer os caminhos, mapas e veredas.
E me pergunto como encantar esta “Geografia” para as leituras da vida nossa de cada dia? Talvez seja preciso exercitar, aprofundar, abrir o olhar e descobrir que cada lugar guarda suas histórias. Cada povo guarda em si saberes e fazeres e as pessoas, cada uma do seu jeito desenha, redesenha, borda e reborda e percorre caminhos em sua existência.
A arte cria pontes onde faltam palavras

A arte tem funções educativas, sociais e psicológicas. Tem, sobretudo, a função de humanizar. É amiga íntima do olhar e da sensibilidade. Pode nos ajudar nas travessias em que as palavras não bastam. Aquelas brincadeiras com sementes já nos diziam isso. Eram experiências que confirmavam os caminhos da arte de compartilhar e de ser.
Bem assim na música, na literatura, no teatro, na pintura, na dança, no bordado e em tantas outras linguagens, a arte abre caminhos para novas leituras e para uma inserção mais sensível na realidade. É um convite ao sentir-pensar-agir.
Na linguagem da bordadeira, esse itinerário pode significar tecer, bordar, pespontar, alinhar, alinhavar, rebordar o olhar e o esperançar. E esperançar é levar adiante, é juntar-se a outros “para fazer de outro modo”.

Da arte à experiência humana, um encontro possível que não pede uniformidade de pensamento.Quando ouvimos uma música que nos emociona mesmo quando não sabemos a letra. Nas leituras que nos levam a olhar de outra forma para pessoas que pensávamos conhecer a vida toda. E há filmes que nos apresentam frente a realidades que preferíamos manter ao longe. A arte cria esse espaço raro: permite-nos aproximar do que é diferente sem exigir que deixe de o ser.
A arte cria esse espaço raro: permite que nos aproximemos do que é diferente sem exigir que deixe de ser diferente.
Conviver é uma obra sempre inacabada

As diferenças, os conflitos e a escolha de construir uma convivência digna é um dos des(a)fios mais fortes do momento.
Lembro-me dos versos de Lenine, que traduzem tão delicadamente a arte de viver juntos: “…Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma, a vida não para. A vida é tão rara.”
A vida é mesmo rara. E viver juntos não significa concordar com tudo, eliminar conflitos ou dissolver diferenças. Significa aprender a discordar sem desumanizar, escutar sem reduzir o outro às nossas certezas e construir espaços onde diferentes pessoas possam existir com dignidade. É esse o exercício que o nosso tempo nos pede.

Volto àqueles meninos de um dia, que permanecem vivos na memória. Às mãos que recolhiam sementes, descobriam cores, desenhavam nas pedras e inventavam histórias. Mãos que, antes mesmo de saber, já aprendiam a olhar o mundo e a compartilhá-lo.
A arte não apaga nossas diferenças, mas pode nos ensinar a enxergá-las de outras maneiras. Abre janelas, aproxima mundos e nos convida a perceber que a vida, mesmo quando enviesada por conflitos e contradições, continua sendo uma obra em construção. Obra que continua a ser escrita, todos os dias, pela forma como escolhemos olhar, escutar e acolher quem caminha ao nosso lado.
E se nossas mãos também pudessem olhar? O que diriam sobre tudo aquilo que nossos olhos ainda não conseguem ver e que nossa fala ainda não sabe nomear?
Brasília, 30/10/26







