Você está com tanta pressa de terminar que esqueceu de viver?
A gente quer chegar logo ao final do que está fazendo. Enquanto isso, deixa de viver momentos e movimentos cheios de beleza.
Na pressa, deixamos de olhar em volta, perdemos contatos e convivências com pessoas importantes na nossa vida, com a realidade em volta. E tudo isso parece caber numa palavra: “correria”. Uma justificativa que soa plausível, até percebermos que o distanciamento do outro e de nós mesmos pode começar bem aí.

Queremos terminar o trabalho, concluir o projeto, eliminar as pendências. O descanso vira uma pausa para recarregar as energias e continuar a corrida contra o tempo. O lazer fica em segundo plano, às vezes acompanhado da culpa por não estarmos fazendo algo produtivo. Tudo para ”chegar lá”.
Nesse ritmo, nem percebemos o caminho, o que acontece nele, a beleza de cada momento. Deixamos de lado o processo, enquanto seguimos nossa trilha.

Às vezes, tomamos um atalho e perdemos a direção.
Então, precisamos voltar e refazer uma parte do caminho do bordado.
Penso nisso quando imagino alguém bordando. O pano está ali, com suas tramas e texturas, disponível para agulha e linha criar imagens. Tudo começa com um desenho. Aos poucos é que vai revelando o que antes estava apenas anunciado.
Mas o que fazemos com a vida nossa de cada dia? Por que queremos que o esforço se transforme logo em resultado? Por que esperamos que o começo já anuncie o final e que cada etapa nos entregue alguma coisa que justifique o tempo investido?

Mas é que o tempo não borda correndo. Penso em alguém que começa um bordado preocupado apenas em terminá-lo. Os pontos viram uma obrigação, e a mão já não acompanha o ritmo do coração e do cuidado que o criar exige. O objetivo deixa de ser bordar. Passa a ser acabar de bordar. Nem tudo precisa ser terminado agora.
Talvez seja hora de prestar atenção à maneira como seguramos o fio. Parece pouca coisa, mas muda o modo como vivemos o que estamos fazendo. Em vez de acompanhar cada ponto, pensamos no resultado.
Isso me lembra um livro que li um dia, A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, de Eugen Herrigel. Ao falar da prática do arco e flecha, o autor aborda o desapego em relação ao resultado. O aprendizado não está apenas em acertar o alvo, mas também no caminho de atenção e autoconhecimento que a prática exige.

Quando nos preocupamos apenas com o resultado, o presente começa a parecer um atraso. O ponto que falta incomoda. A etapa que pede cuidado parece longa demais. O processo inteiro se transforma em algo que precisamos percorrer para, enfim, chegar à parte que importa.
Só que essa parte nunca chega sozinha. A imagem é feita justamente daqueles pontos que gostaríamos de apressar. O desenho vai tomando forma enquanto bordamos. E há também o avesso, com seus fios e nós, a parte que quase ninguém vê, mas que faz parte do trabalho. A imagem não aparece de repente no final. Ela está sendo construída durante todo o percurso.

Na vida, também queremos pular etapas. Terminar vira prioridade, e esquecemos o valor da experiência, do aprendizado de cada ponto, dos movimentos e até das incertezas que encontramos pelo caminho.
E se, entre um ponto e outro, olhássemos para trás? Talvez encontrássemos uma história cheia de pequenas belezas, de encontros, descobertas e coisas que, na pressa de chegar, quase deixamos passar.
O que fazer, então, com o tempo necessário para criar o bordado por inteiro? Nem sempre sabemos responder. Ainda assim, seguimos puxando o fio.

O mundo pede pressa. Os fios nos ensinam outra coisa.

Brasília, 16 de outubro 2026






