Às vezes, basta trocar uma cor para o desenho deixar de ser o mesmo.
É surpreendente pensar que uma escolha tão pequena possa mudar tanto uma imagem. Um fio que entra em outro lugar do pano, uma cor que se aproxima de outra, um espaço que decidimos deixar vazio. De repente, aquilo que estava diante dos nossos olhos já não é mais o que era. Talvez seja por isso que todo bordado comece antes do primeiro ponto. Começa na escolha. No fio que a mão procura. Na cor que chama o olhar. Na trama onde a agulha vai percorrer. No lugar por onde começar. E, depois, por onde seguir.

Meu olhar corre entre o desenho e minha caixa de linhas. Vou experimentando cores, fios, pontos e caminhos. E me pergunto: será que bordar pode ser também uma maneira de aprender a escolher?

No bordado livre, o desenho não é exatamente um lugar de chegada. É um ponto de partida. Parto dele, mas no caminho posso misturar fios, mudar uma direção, alterar o ritmo, criar volumes, aproximar cores, deixar espaços. O desenho vai se transformando enquanto faço.
A aprendiz que habita em mim gosta de pensar que, ao bordar, a gente não controla inteiramente o que está criando. Uma cor ao lado de outra muda as duas. Um ponto deslocado pode transformar o movimento de uma forma, criar uma sombra, trazer uma luz. Até o espaço vazio participa da composição.

E assim vou percebendo que o bordado é feito também dessas pequenas decisões que acontecem no caminho. Outro dia, enquanto bordava, me dei conta de que passo boa parte do tempo escolhendo. Não apenas no bordado.
Escolho, experimento, mudo de ideia. Sigo por um caminho e, às vezes, volto. Há escolhas que ficam. Outras chamam pra ser desmanchadas. Algumas só fazem sentido depois que experimentamos. Talvez seja por isso que gosto tanto do bordado livre. Ele me lembra que não existe apenas um caminho possível.

O desenho apresenta possibilidades, mas é a nossa presença diante dele que vai revelando itinerários. As mãos fazem, o olhar descobre, a memória aparece, a imaginação interfere. E alguma coisa dentro da gente vai dizendo: é por aqui.
Nesta prosa de Alpendre, que começou lá em casa, com mamãe, e continua hoje comigo, vou pensando que criar também é aprender a fazer escolhas.
Escolher uma cor. Escolher uma linha. Escolher onde começar. Depois, escolher por onde seguir. E, quando necessário, escolher de novo. Percebo que esta é uma das coisas incríveis que o bordado me ensina todo dia: fazer também é pensar. Pensar com os olhos, com as mãos, com a memória e com a imaginação.

Quando a gente borda, entre pontos, linhas, cores e agulhas, pode comparar, imaginar possibilidades, experimentar por entre veredas. Nessa hora permite-se que o desenho converse conosco enquanto o fazemos.
E talvez seja justamente aí que o bordado encontre a vida. Porque também vamos nos fazendo assim: entre escolhas, desvios, descobertas, retornos e recomeços. Uma escolha muda o caminho. Uma mudança de caminho transforma o que vem depois.
E, quando olhamos novamente, percebemos que o desenho já não é o mesmo. Nem nós. Seria por isso que toda escolha muda o desenho? E seria por isso que aprender a bordar seja, de algum modo, aprender a fazer escolhas?

A pergunta que fica é: se toda escolha muda o desenho, o que será que estamos desenhando quando escolhemos olhar de outro jeito?
Brasília, 04/10/26







